Em 30 segundos
Cerca de 1,25 milhões de votantes a mais. Boric perdeu a 1.ª volta para Kast por dois pontos e venceu a 2.ª com 55,87%, com voto voluntário.
“Un millón de puertas”. Com mapas de calor da 1.ª volta, a campanha enviou voluntários aos bairros periféricos e a quem não tinha votado.
2.ª volta com voto voluntário: decide quem ainda não votou. A campanha foi à porta para ouvir e alargou a mensagem sem largar a base.
Os primeiros passos
- Mapear coletivos, sindicatos, juntas de bairro e grupos de fãs que já se organizam na zona
- Criar comandos locais com contactos e consentimento, meses antes da eleição
- Preparar um kit de materiais editáveis e um quadro de orientações
Se és novo nisto, começa pelos fundamentos, da meta de votos ao que diz a investigação. Ler os fundamentos
Quem fez
A reviravolta teve uma direção de campanha pequena e uma multidão de grupos que nunca pediram autorização.
A reviravolta teve uma direção de campanha pequena e uma multidão de grupos que nunca pediram autorização. Os relatos dos organizadores abaixo (em entrevistas, discursos e reportagens baseadas em conversas com eles) são as fontes principais deste playbook.
Izkia Siches
Presidente do Colegio Médico (Ordem dos Médicos do Chile) até 23 nov. 2021; depois diretora de campanha de Boric na segunda volta
Deixou o Colegio Médico dois dias depois da primeira volta e fez uma digressão de 12 dias pelo país, de Arica a Los Lagos, com a filha bebé, seguindo um mapa de comunas prioritárias definido pela campanha.
FontesKarol Cariola
Deputada do Partido Comunista, organizadora da digressão “Un millón de puertas por Boric”
Coordenou a campanha nacional porta a porta em 66 comunas (municípios), com pelo menos 45 “embaixadoras e embaixadores” vindos de movimentos sociais, artes, cultura e política.
FontesGiorgio Jackson e Irací Hassler
Deputado (Revolución Democrática) e presidente da câmara de Santiago (PC)
Lideraram o arranque do porta a porta na Região Metropolitana a 5 dez. 2021, com a indicação de ouvir quem não tinha votado ou tinha votado noutro candidato.
FontesMatías Grau e Nicolás Cataldo
Engenheiro civil industrial, responsável pela inteligência de dados; e coordenador territorial da campanha (PC)
Grau desenhou com a sua equipa de dados e sondagens o novo destacamento territorial a partir de mapas de calor; Cataldo coordenou o território, dividido por regiões e por zonas periféricas.
FontesSebastián Kraljevich
Sociólogo, principal estratega da campanha de Boric
Explicou depois da vitória que o resultado da primeira volta mostrou o perigo e mobilizou, e que o candidato precisava de tranquilizar os eleitores.
FontesTito Bofill e Nicole Otazo (Cooperativa Cuarto de Guerra)
Redator e analista de narrativa; coordenadora geral de redes sociais, numa cooperativa de 11 jovens profissionais
Contaram como a campanha digital combinou canais oficiais com centenas de contas autogeridas “xBoric”, materiais fáceis de reproduzir e um quadro de orientações, sem bots.
FontesMatías Toledo e a Coordinadora Social Shishigang
Líder social de Puente Alto e os seus “Comandos por el Buen Vivir”, autónomos
Juntou assembleias, juntas de vizinhos, clubes de futebol e cozinhas comunitárias numa das comunas com mais votos novos para Boric.
FontesGracia Ortiz (Kpopers por Boric)
Designer e membro de um pequeno grupo de fãs de K-pop que fez campanha na segunda volta
Organizou ações online e eventos presenciais, guias para votar em segurança e para denunciar discurso de ódio e notícias falsas.
FontesJaviera Cabello, Felipe Heusser e Nataly Campusano
Chefe de campanha, responsável de comunicação e responsável territorial na campanha das primárias (julho de 2021)
Montaram a campanha das primárias, com 357 comandos territoriais autofinanciados e um tempo de antena, escrito por Pablo Paredes, que consumiu quase metade dos 87 milhões de pesos angariados.
Fontes
Nas palavras de quem fez
Paráfrases de entrevistas e declarações dos próprios organizadores.
Paráfrases de entrevistas e declarações dos próprios organizadores. As citações curtas estão entre aspas e traduzidas do espanhol.
Pediu a cada apoiante que batesse a portas e convencesse um vizinho, e contrastou com o adversário: “aqui usamos pessoas reais, de carne e osso”, não bots.
Gabriel Boric, no lançamento de “Un millón de puertas”, La Tercera, “Boric lanza campaña ‘1 millón de puertas’”, dez. 2021
Depois da primeira volta, a pergunta de trabalho era só uma: “onde estão as pessoas que poderiam votar em nós?”.
Matías Grau, inteligência de dados da campanha, CIPER, “Una campaña territorial histórica”, 5 jan. 2022
A campanha enviava os mapas de calor e a tarefa era sair à procura dos votos que ainda não eram seus.
Claudia Mix, deputada (Comunes), sobre Maipú, CIPER, 5 jan. 2022
O diagnóstico dele sobre a primeira volta: “faltou rua na campanha”.
Matías Toledo, Shishigang (Puente Alto), CIPER, 5 jan. 2022
Mais 6 citações
A indicação para os voluntários era ouvir primeiro (“prestar muita atenção”) quem não votou ou votou noutro candidato, e só depois apresentar propostas.
Giorgio Jackson, no arranque do porta a porta em Santiago, Chilevisión, 5 dez. 2021
O eleitor percebeu que havia “uma ameaça real”. E o candidato precisava de deixar claro que o seu governo não vinha tirar nada a ninguém.
Sebastián Kraljevich, estratega da campanha, The Clinic / Página/12, 23 dez. 2021
Criaram materiais que qualquer pessoa podia fazer e partilhar sem inscrição nem hierarquia, e um quadro central de orientações para manter a coerência e antecipar ações arriscadas. Escolheram não usar bots.
Tito Bofill e Nicole Otazo, Cooperativa Cuarto de Guerra, Beers & Politics, entrevista, 11 fev. 2022
Talvez o meme sozinho não importe muito: para converter o apoio online, “tem de haver também uma campanha territorial”.
J., administrador da Brigada Otaku Antifascista (92 mil seguidores), Interferencia, “Poblaciones, memes y K-Pop”, 28 nov. 2021
Tudo partiu de uma pergunta: o que podiam fazer, como fãs de K-pop, para mobilizar as pessoas.
Gracia Ortiz, Kpopers por Boric, CNN Chile, dez. 2021
Recrutou eleitores estreantes e militantes antigos; segundo ela, dos 4.900 votos de Boric na comuna na segunda volta, 1.500 eram novos, e o comando cobriu todas as mesas com 55 delegados.
Judith Leiva, comando autoconvocado de Colbún (Maule), CIPER, 5 jan. 2022
A história
Boric, antigo dirigente estudantil de 35 anos, ganhou as primárias ao comunista Daniel Jadue com 60,42% e chegou à primeira volta com uma…
Boric, antigo dirigente estudantil de 35 anos, ganhou as primárias ao comunista Daniel Jadue com 60,42% e chegou à primeira volta com uma campanha muito assente nas redes. Perdeu-a por dois pontos. O que se seguiu foi uma campanha diferente, feita em quatro semanas.
- 55,87%
- para Boric na segunda volta, 19 dez. 2021 (4.620.890 votos)oficial
- +1,25 M
- votantes a mais do que na primeira volta (8.363.910 contra 7.114.318)oficial
- +2,8 M
- votos para Boric entre as duas voltas (de 1,8 para 4,6 milhões)oficial
- 58% → 67%
- participação das mulheres dos 30 aos 50 anos, da primeira para a segunda volta (DecideChile)estimativa
Do estallido à reviravolta
- 18 out. 2019Começa a revolta social contra o aumento do bilhete do metro de Santiago. A 15 de novembro, Boric assina a título pessoal o acordo que abre o processo constituinte, o que lhe custa críticas e saídas no próprio partido.
- 25 out. 2020Plebiscito: 78,31% aprovam uma nova Constituição, com cerca de 51% de participação.
- 18 jul. 2021Boric vence as primárias do Apruebo Dignidad contra Daniel Jadue (60,42%). A campanha tem 357 comandos autogeridos; a de Jadue tinha 1.200.
- 21 nov. 2021Primeira volta: Kast 27,91%, Boric 25,82%, Parisi 12,81%. Participação de 47,33%. Na mesma noite, a Coordinadora Feminista 8M reúne-se e convoca uma assembleia antifascista que junta perto de 2.000 pessoas.
- 22–23 nov. 2021Izkia Siches deixa o Colegio Médico e assume a direção da campanha. A candidatura reorganiza-se em três áreas (política, comunicação, território) e a equipa de dados desenha mapas de calor.
- início dez. 2021Lançamento de “Un millón de puertas por Boric” em Pudahuel, com uma digressão por 66 comunas, e da “Ruta de la Esperanza” de Siches, que parte de Arica e percorre todas as regiões até Los Lagos em 12 dias.
- 5 dez. 2021Começa o período legal de propaganda. Jackson e Hassler lançam o porta a porta na Região Metropolitana; Boric está no Biobío e Siches em Iquique.
- 10 e 13 dez. 2021Os dois únicos debates aceites pela campanha (Archi e Anatel). Kast critica o número reduzido de debates; a campanha responde que a prioridade é o território.
- 19 dez. 2021Boric 55,87%, Kast 44,13%, quase 971 mil votos de diferença. Participação de 55,64%, a maior desde o fim do voto obrigatório. Cerca de 100 mil pessoas festejam no centro de Santiago.
- 11 mar. 2022Boric toma posse aos 36 anos, o presidente mais jovem da história do Chile. Siches torna-se a primeira mulher ministra do Interior.
Três camadas
A reviravolta assentou em três camadas sobrepostas, com graus diferentes de controlo.
- A direção centralPequena: dados e sondagens, comunicação, território dividido por regiões entre dirigentes partidários, com autarcas e vereadores a ganhar peso. Decidia prioridades, mapas e mensagem.
- Os rostos que viajamSiches no norte e nas regiões, Boric no sul, Cariola com 45 embaixadores em 66 comunas, Jackson e Hassler em Santiago. Cada digressão seguia o mapa de comunas prioritárias.
- O transbordo cidadãoComandos autoconvocados, coletivos feministas, juntas de vizinhos, clubes de futebol, artistas, humoristas e fandoms que fizeram campanha própria, muitas vezes mais depressa do que a campanha oficial.
O que não se sabe. Os resultados vêm do Servel, a autoridade eleitoral chilena (via Wikipedia); os de participação por idade e sexo são estimativas da DecideChile/Unholster a partir de dados por mesa e variam ligeiramente entre publicações (55,55% a 55,64% de participação).
Não há um total oficial de portas batidas nem de voluntários: “um milhão de portas” era uma meta, não um número verificado. Os números por comuna (Maipú, Puente Alto, Colbún, Antofagasta) foram relatados pelos organizadores ou por reportagens. Nenhum estudo isola o efeito do porta a porta: o medo de Kast, o apoio da antiga Concertación, os debates e a viagem de Kast aos EUA durante a campanha também pesaram. O papel de Siches e as decisões internas da candidatura vêm sobretudo de reportagens baseadas em fontes da campanha, não de relatos publicados por ela.
O terreno
O Chile de 2021 vinha de uma revolta social (2019), de um plebiscito constitucional ganho com 78% (2020) e de uma pandemia.
O Chile de 2021 vinha de uma revolta social (2019), de um plebiscito constitucional ganho com 78% (2020) e de uma pandemia. O voto era voluntário desde 2012: metade do eleitorado não votava, e foi aí que a eleição se decidiu.
Plataformas
- Porta a porta e conversas de vizinhança
- O centro da reviravolta. Com voto voluntário, a tarefa era encontrar quem não tinha votado e convencê-lo a ir; os voluntários levavam um guião para quem se absteve e para eleitores de outros candidatos.
- Digressão pelas regiões (“Ruta de la Esperanza”, Rota da Esperança)
- Izkia Siches viajou de autocarro de norte a sul, com encontros com pequenos empresários, dirigentes sociais e profissionais de saúde, onde Boric tinha tido maus resultados na primeira volta.
- Twitter, Instagram e TikTok
- Conversa política e cultura pop: memes feitos por apoiantes, contas de fandoms (K-pop, Taylor Swift, anime), contas autogeridas “xBoric”. O próprio Boric partilhava os melhores.
- Facebook (anúncios)
- Na última semana, Boric gastou cerca de 35,8 milhões de pesos em anúncios no Facebook, contra 137,9 milhões de Kast: a vantagem não veio do dinheiro gasto em publicidade paga.
- Tempo de antena e debates na TV
- Dez minutos diários de propaganda gratuita na televisão (a franja electoral), divididos entre os dois candidatos, e dois debates escolhidos pela campanha (10 e 13 dez. 2021).
- Rádio local e cartas
- Comandos pequenos pagaram programas e spots em rádios locais; a Unholster enviou cartas a 28.500 pessoas que tinham votado no plebiscito mas não na eleição da Convenção.
Condições locais
- Voto voluntário com recenseamento automático: a participação era elástica (47,33% na primeira volta, 55,64% na segunda), por isso mobilizar abstencionistas valia tanto como convencer indecisos.
- A herança do estallido (revolta) de 18 out. 2019: assembleias de bairro, coletivos feministas, cozinhas comunitárias da pandemia e grupos do processo constituinte reativaram-se contra Kast.
- Um adversário que assustava: Kast propunha, entre outras coisas, indultar idosos condenados por crimes da era Pinochet e uma vala na fronteira com a Bolívia; o medo de perder direitos mobilizou mulheres e jovens.
- Uma primeira volta fragmentada: Franco Parisi (12,81%), que fez campanha a partir dos EUA, ganhou no norte; os seus eleitores estavam disponíveis para os dois lados.
- Um prazo curto e regulado: quatro semanas entre voltas e propaganda legal só de 5 a 16 de dezembro, três dias antes da votação.
- Escândalos passados de financiamento político tornaram os eleitores sensíveis ao dinheiro de grandes doadores. A campanha pediu donativos nas redes e no tempo de antena, mas, até 10 de dezembro, 92% dos recursos declarados por Boric vinham de crédito bancário (940 milhões de pesos, contra 1400 milhões de Kast), segundo a Ex-Ante.
- Desinformação: no início de dezembro circularam notícias falsas vindas do círculo de Kast; verificadores de factos, universidades e apoiantes desmontaram-nas.
- Uma coligação de esquerda (Apruebo Dignidad: Frente Ampla e PC) que, na segunda volta, recebeu o apoio da antiga Concertación, incluindo Ricardo Lagos e Michelle Bachelet.
O método
Ninguém escreveu um manual da reviravolta.
Ninguém escreveu um manual da reviravolta. Os relatos dos organizadores descrevem um diagnóstico rápido, uma campanha aberta a quem queria ajudar e a procura de quem não tinha votado.
Três frentes
- Ir buscar quem não votou
- Num sistema de voto voluntário, a reserva de votos está nos abstencionistas. Os mapas de calor da primeira volta indicaram bairros periféricos e comunas prioritárias; voluntários e cartas procuraram quem tinha faltado.
- Abrir a campanha sem a controlar
- Comandos autoconvocados, coletivos e fandoms fizeram campanha própria com materiais fáceis de reproduzir. A direção deu um quadro de orientações.
- Alargar sem abandonar a base
- Mudança de tom e de indumentária, segurança pública no discurso, garantias sobre o que não mudaria, apoio da antiga Concertación, mantendo as causas que mobilizavam mulheres e jovens.
O ciclo de quatro semanas
Da noite da derrota na primeira volta ao dia da votação, a campanha seguiu este circuito e repetiu os passos 3 a 6 todos os dias.
- Diagnosticar Na mesma semana, perguntar onde estão os votos possíveis: comparar a primeira volta com o plebiscito e as primárias, por comuna e por mesa.
- Reorganizar Três áreas (política, comunicação, território), um rosto novo que alarga a coligação e responsáveis nomeados para cada zona prioritária.
- Mapear Mapas de calor e listas de comunas prioritárias para orientar as digressões dos rostos e o porta a porta dos comandos.
- Ouvir à porta Guião que começa por perguntar e ouvir, com versões para quem não votou e para quem votou noutro candidato.
- Soltar a criatividade Materiais que qualquer grupo pode produzir e partilhar: cartazes, canções, memes, eventos culturais, campanhas de fãs.
- Alargar a mensagem Responder ao medo que o adversário semeia com garantias concretas e apoios de figuras moderadas, e ao medo do próprio eleitorado com o que está em jogo.
- Proteger o voto Delegados em todas as mesas, informação sobre onde e como votar e um último impulso à participação.
E recomeça.
Toolkit
O que é preciso para tentar uma reviravolta numa segunda volta (ou em qualquer reta final) com pouco dinheiro e muita gente.
O que é preciso para tentar uma reviravolta numa segunda volta (ou em qualquer reta final) com pouco dinheiro e muita gente. Serve para uma eleição nacional, uma autarquia ou um referendo, desde que respeite as regras desta página.
Escolhe o teu país para ver as ferramentas equivalentes e os pontos legais a confirmar.
Operação
A direção era pequena e o trabalho estava disperso. A regra prática: o centro decide onde e o quê; os comandos decidem como.
Funções essenciais
- Direção de campanha que alarga
- Uma figura com credibilidade fora da coligação, capaz de viajar e falar com setores que o candidato não alcança. No Chile, uma médica conhecida da pandemia.
- Inteligência de dados
- Uma equipa pequena que cruza resultados por comuna e por mesa, produz mapas de calor e lista as zonas prioritárias. Atualiza-os todas as semanas.
- Coordenação territorial
- Responsáveis por região e por zona periférica prioritária, que ligam a direção aos comandos locais, autarcas e vereadores.
- Embaixadores do porta a porta
- Pessoas conhecidas dos movimentos sociais, da cultura e da política que mobilizam voluntários em cada comuna; no Chile, pelo menos 45 em 66 comunas.
- Comandos locais
- Grupos de bairro, de comuna ou temáticos (mulheres, saúde, pensões, educação) que se formam sozinhos e escolhem as suas ações dentro do quadro de orientações.
- Comunicação e kit aberto
- Uma equipa que escreve a narrativa, produz peças e, sobretudo, materiais que qualquer pessoa pode adaptar, com orientações para evitar ações arriscadas.
- Escuta e resposta
- Quem acompanha a conversa nas redes, identifica notícias falsas e fornece a verificadores e apoiantes respostas confirmadas.
- Delegados de mesa
- Delegados acreditados em cada mesa de voto, da abertura à contagem. Um comando pequeno como o de Colbún cobriu todas as suas mesas com 55.
Ritmo
- Noite da primeira voltaReunião dos coletivos e declaração pública; na campanha, decisão de reorganizar. Não espere pela semana seguinte.
- Primeiras 72 horasNova direção, três áreas, primeiros mapas de calor e lista de comunas prioritárias.
- Todos os diasUm grande evento ou paragem de digressão por dia nalgum ponto do país; porta a porta dos comandos nas zonas do mapa; partilha do melhor conteúdo dos apoiantes.
- Todas as semanasAtualizar o mapa com sondagens e relatos dos comandos; redistribuir voluntários para onde há mais votos possíveis.
- Período legal de propagandaNo Chile, de 5 a 16 de dezembro: tempo de antena na TV, dois debates escolhidos, ritmo máximo no terreno.
- Última semanaEncerramento de campanha, lembrete de onde votar, delegados confirmados, transporte e horários combinados nos comandos.
Quatro semanas é pouco: a reviravolta só foi possível porque já existiam 357 comandos, coletivos ativos desde 2019 e uma base com experiência de campanha (plebiscito, Convenção). Começa a construir essa rede muito antes de precisar dela.
Plano B
- Vários rostos em viagem ao mesmo tempo, para não depender da agenda de um só.
- Comandos autónomos que continuam a trabalhar mesmo que a direção central falhe ou se atrase.
- Materiais em formato aberto e editável, para que cada grupo os reproduza sem esperar pela gráfica central.
- Uma rede de verificadores de factos, universidades e apoiantes para desmontar notícias falsas depressa.
- Delegados suplentes para cada mesa.
- Contacto direto (porta, telefone, carta) para chegar a quem não está nas redes.
Tecnologia
O que contou foram dados públicos bem lidos, materiais abertos e conversas à porta.
- Mapas de calor da primeira voltaDados públicos da autoridade eleitoral; análise por voluntários ou consultora
Resultados por comuna e por mesa cruzados com o plebiscito e as primárias, para encontrar bolsas de votos possíveis e abstencionistas. No Chile, produzidos pela Unholster para a campanha.
- Guião e kit de porta a portaImpressão
Guião com versão para quem não votou e para quem votou noutro candidato, folheto com as propostas e com o local de voto.
- Registo de portas e conversasGrátis
Uma folha partilhada por comando, com as colunas abaixo, para saber por onde já se passou e o que as pessoas disseram.
- Formulário para comandos e voluntáriosGrátis
No Chile, os comandos formaram-se sozinhos; um formulário simples (nome do grupo, zona, contacto, consentimento) ajuda a saber quem existe e a enviar o mapa a cada grupo.
- Grupos de coordenação dos comandosGrátis
Um grupo por comando e um de responsáveis por zona. O caso chileno não documenta a ferramenta: usa o serviço de mensagens dominante no teu país.
- Kit criativo abertoGrátis a baixo
Peças editáveis, símbolos e canções que qualquer pessoa pode adaptar; no Chile, cartazes, autocolantes, a árvore da primeira volta e a playlist colaborativa «El Árbol», com 307 canções originais (cerca de 18 horas), embora o «Disco Kast», no Spotify, tenha tido mais ouvintes e chegado ao topo do Top 50 Chile.
- Canais oficiais do candidatoGrátis
Contas do candidato e da campanha que publicam e partilham o melhor conteúdo dos apoiantes, dando-lhe alcance sem o controlar.
- Escuta socialGrátis a médio
Acompanhar a conversa pública por fases para ver que narrativa domina e onde surgem notícias falsas. No Chile, um laboratório universitário analisou o Twitter.
- Cartas a quem faltouCorreio e impressão
Cartas a eleitores que votaram numa eleição anterior mas faltaram à última (no Chile, 28.500 pessoas), usando apenas dados que a lei permite usar.
- Pequenos donativosComissões da plataforma
Angariação coletiva (crowdfunding) como forma de participação e como contraste com o dinheiro de grandes doadores, com limites e declarações legais. No caso chileno, o grosso da segunda volta veio de crédito bancário, não de angariação coletiva.
- Eventos culturaisBaixo, muitas vezes doado
Concertos, leituras, cimeiras de humor, eventos de fãs com cup sleeves, passeios de bicicleta: portas de entrada para quem não vai a comícios.
- Anúncios declaradosCerca de 35,8 milhões de pesos no Facebook na última semana
Anúncios em redes sociais e spots em rádios locais, todos declarados. No Chile, Boric gastou no Facebook cerca de um quarto do que Kast gastou na última semana.
- Rede de delegados de mesaVoluntários
Lista de delegados por mesa, com formação básica e um contacto no dia.
Colunas do registo de porta a porta
Data e hora · Comuna e bairro (zona do mapa) · Voluntários · Portas batidas · Conversas · Votou na primeira volta? (sim/não/outro candidato) · Preocupação principal · Sabe onde vota? · Quer ajudar ou ser contactado (com consentimento)
Em julho de 2021, a campanha tinha angariado cerca de 87 milhões de pesos, e quase metade foi para a produção do tempo de antena na TV; os comandos pagaram o seu próprio material, declarado como donativo em espécie. Na segunda volta, até 10 de dezembro, a campanha declarou 940 milhões de pesos, 92% dos quais de crédito bancário, contra 1400 milhões de Kast. Na segunda volta, a vantagem não veio do gasto em publicidade paga: Kast gastou mais no Facebook.
Comunicação
Na segunda volta, a campanha trocou o tom de nicho das redes por uma mensagem para o país: esperança, garantias e o que estava em jogo para mulheres e jovens.
A fórmula de uma conversa à porta
- Apresentar-se Quem é, de onde vem, que é vizinho ou voluntário, não um funcionário.
- Perguntar e ouvir Votou na primeira volta? O que o preocupa? Ouvir primeiro, como pediam os coordenadores em Santiago.
- Ligar à preocupação Uma proposta concreta que responde ao que a pessoa disse: saúde, pensões, segurança, educação.
- Dizer o que está em jogo Direitos conquistados que podem ser perdidos, sem insultar o adversário nem quem votou nele.
- Pedir o voto e o plano Sabe onde vota? A que horas vai? Com quem? Pode convencer mais uma pessoa?
Regras de mensagem
- Fala para o país, não para a bolha: Boric passou de “compañeros y compañeras” (camaradas) para “chilenos y chilenas”.
- Responde aos medos que o adversário explora com garantias concretas (lá: “o meu governo não vem tirar-lhe nada”).
- Não fujas dos temas incómodos para a tua base: Boric falou de segurança e narcotráfico na própria noite da primeira volta.
- Mostra apoios que tranquilizam os indecisos (no Chile, Lagos e Bachelet) sem esconder a coligação.
- Deixa os apoiantes falarem na sua própria linguagem (memes, música, fandoms) e partilha o melhor.
- Usa a palavra que mobiliza: lá foi “esperança”.
- Contra notícias falsas, responde com factos verificados e não inventes nada sobre o outro lado.
Exemplo
Boa tarde, chamo-me Camila, moro aqui no bairro e estou a ajudar a campanha. Posso fazer-lhe uma pergunta? Votou em novembro? Não faz mal se não votou, muita gente não foi. O que é que mais o preocupa hoje? … Compreendo. É por isso que vou votar no dia 19: [proposta ligada ao que a pessoa disse]. Sabe onde vota? Posso deixar-lhe aqui a morada e o horário. E se puder levar mais alguém lá de casa, melhor ainda.
Levar para o teu contexto
Parte da reviravolta serve em qualquer lugar; outra parte dependeu do voto voluntário e da história recente do Chile.
Parte da reviravolta serve em qualquer lugar; outra parte dependeu do voto voluntário e da história recente do Chile. Separa as duas antes de copiar.
Funciona em qualquer lado
- Diagnosticar nas primeiras 72 horas, com dados públicos por mesa, onde estão os votos possíveis.
- Ir buscar quem não votou ou votou noutro candidato com um guião que começa por ouvir.
- Abrir a campanha a grupos autónomos com materiais editáveis e um quadro de orientações, em vez de exigir inscrição e hierarquia.
- Pôr na estrada um rosto que alarga a coligação e chega a regiões onde o candidato é fraco.
- Alargar a mensagem com garantias concretas sem abandonar as causas que mobilizam a base.
- Delegados acreditados em todas as mesas.
- Financiamento por pequenos donativos, declarados.
- Recusar bots e perfis falsos e dizê-lo em público: torna-se argumento de campanha.
Depende do contexto
- Voto voluntário
- Com voto obrigatório (como no Chile desde 2022, no Brasil ou na Argentina), quase todos votam: a reserva de votos está nos indecisos e nos que anulam, não nos abstencionistas. O porta a porta passa a ser de persuasão e o mapa deve procurar eleitores que mudam, não eleitores que faltam.
- Herança do estallido e do processo constituinte
- Sem uma rede recente de assembleias e coletivos, a mobilização espontânea será menor. Constrói-a antes: comissões por causa, grupos de bairro e listas de contactos com consentimento, meses antes da reta final.
- Um adversário de extrema-direita que mobiliza pelo medo
- Contra um adversário moderado, o “ele não” mobiliza pouco. Nesse caso, a conversa à porta tem de vender mais a proposta e menos a ameaça.
- Fandoms e cultura pop chilena
- Troca K-pop, anime e Taylor Swift pelos públicos que se organizam muito online no teu país: claques, comunidades de videojogos, igrejas progressistas, cenas de música local.
- Tempo de antena gratuito
- Onde não há tempo de antena gratuito, a TV paga pode ser demasiado cara; põe esse dinheiro em material de porta a porta e em rádio local.
- Uma médica conhecida da pandemia
- Procura a figura com credibilidade própria no teu contexto (uma dirigente sindical, uma cientista, uma autarca popular) e dá-lhe um papel real, não apenas simbólico.
Jogadas para levar
Escolhe as jogadas que servem o teu contexto e junta-as ao teu kit.
Escolhe as jogadas que servem o teu contexto e junta-as ao teu kit.
-
Mapa de calor de quem ainda não votou
Na semana da derrota, uma pequena equipa de dados cruza os resultados por mesa com eleições anteriores e desenha mapas de calor dos votos possíveis e da abstenção, que decidem para onde vão os voluntários e os rostos da campanha. No Chile, a pergunta era “onde estão as pessoas que poderiam votar em nós?”, e comunas periféricas como Maipú e Puente Alto deram dezenas de milhares de votos novos.
Como montar, passo a passo
- Funciona quando
- Funciona numa reta final curta com dados públicos por mesa, quando a participação é elástica ou há muitos eleitores que mudam de lado.
- Não usar quando
- Não funciona se o mapa fica no comando: sem responsáveis por zona e voluntários que o sigam, é só um gráfico bonito.
- Semana −4 Na noite do resultado, perguntar: onde estão as pessoas que poderiam votar em nós?
- Semana −4 Cruzar os resultados por mesa com o plebiscito, as primárias e a eleição anterior
- Semana −4 Desenhar mapas de calor de abstenção e de votos possíveis por bairro
- Semana −4 Definir comunas e bairros prioritários, cada um com um responsável
- Semana −3 Enviar o mapa a cada comando local e a cada rosto que viaja
- Semana −2 Atualizar o mapa todas as semanas com sondagens e relatos e mover voluntários
- Semana −1 Na última semana, concentrar os lembretes onde há mais votos possíveis
Equipa
- Inteligência de dados: cruza resultados por mesa e produz os mapas todas as semanas
- Coordenação territorial: liga o mapa aos responsáveis de cada zona prioritária
- Comandos locais: vão às zonas do mapa e relatam o que ouviram
O que medir: Conversas de porta registadas nas zonas prioritárias do mapa, em proporção ao total de conversas; se a maioria acontece onde o candidato já ganha, o mapa não está a orientar o terreno.
Riscos a vigiar: Dados mal usados violam a lei: trabalha com resultados públicos agregados por mesa e, para contactar pessoas, só com dados que a lei permite; com voto obrigatório, procura quem muda de lado, não quem falta.
-
Porta a porta que começa por escutar
Voluntários e embaixadores conhecidos batem às portas das zonas prioritárias com um guião que pergunta antes de falar (com versões para quem não votou e para quem votou noutro candidato) e termina num plano de voto. No Chile, “Un millón de puertas” percorreu 66 comunas com pelo menos 45 embaixadores; em Colbún, segundo a organizadora local, 1500 dos 4900 votos de Boric na segunda volta eram novos.
Como montar, passo a passo
- Funciona quando
- Funciona quando a eleição se decide entre quem faltou ou votou noutro candidato e há pessoas dispostas a ir ao próprio bairro.
- Não usar quando
- Não funciona como sermão nem como recolha de portas: insultar o adversário ou quem votou nele fecha a porta, e porta batida sem conversa não muda votos.
- Semana −12 Criar comandos locais com contactos e consentimento, meses antes da eleição
- Semana −4 Escrever o guião com versões para quem não votou e para quem votou noutro
- Semana −3 Convidar embaixadores conhecidos da cultura e dos movimentos para puxar cada comuna
- Semana −3 Lançar o porta a porta com uma meta pública num bairro prioritário
- Semana −2 Bater às portas todos os dias nas zonas do mapa e registar cada conversa
- Semana −1 Voltar a quem ficou de pensar e perguntar: onde vota, a que horas, com quem?
- Semana −1 Antes do período de reflexão, lembrar a cada contacto o local e o horário
Equipa
- Embaixadores do porta a porta: pessoas conhecidas que puxam voluntários em cada comuna
- Comandos locais: escolhem as ruas e saem em grupo todos os dias
- Registo: mantém a folha de portas, conversas e planos de voto
O que medir: Conversas com quem não votou ou votou noutro candidato que terminam num plano de voto (onde, a que horas, com quem), registadas na folha, não portas batidas.
Riscos a vigiar: Registar dados sem consentimento ou oferecer vantagens em troca do voto é ilegal: anota só o que a pessoa aceitar e respeita o período legal de propaganda e o de reflexão.
-
Kit aberto para comandos autoconvocados
Em vez de exigir inscrição e hierarquia, a campanha dá a qualquer grupo (bairro, coletivo, sindicato, fandom) o mapa, o guião, materiais editáveis e um quadro de orientações, e os canais oficiais partilham o melhor do que os apoiantes fazem. No Chile, a campanha já tinha 357 comandos autogeridos nas primárias, centenas de contas “xBoric” e uma playlist colaborativa com 307 canções originais, sem bots.
Como montar, passo a passo
- Funciona quando
- Funciona quando já existe uma rede de coletivos e grupos organizados que querem ajudar mais depressa do que o comando consegue coordenar.
- Não usar quando
- Não funciona sem quadro de orientações: centenas de grupos soltos também produzem mensagens arriscadas, como tentar “afogar” as hashtags do adversário.
- Semana −12 Mapear coletivos, sindicatos, associações de moradores e grupos de fãs da área
- Semana −8 Preparar o kit editável (cartazes, símbolos, músicas) e o quadro de orientações
- Semana −4 Publicar um apelo para formar comandos, com formulário de grupo, zona e contacto
- Semana −4 Enviar a cada comando o mapa, o guião da porta e o kit
- Semana −3 Partilhar nos canais oficiais o melhor conteúdo feito pelos apoiantes
- Semana −2 Atualizar o quadro de orientações quando surgir uma ação arriscada
- 1 semana(s) depois Depois da votação, agradecer e convidar os comandos a continuarem organizados
Equipa
- Comunicação e kit aberto: escreve a narrativa e faz peças que qualquer um adapta
- Coordenação dos comandos: recebe as inscrições e envia mapa e guião a cada grupo
- Escuta e resposta: acompanha as redes e alerta para notícias falsas e ações de risco
O que medir: Comandos inscritos que relataram pelo menos uma ação fora do ecrã (um turno de porta a porta, um evento, mesas cobertas por delegados); comando que só publica não conta.
Riscos a vigiar: Bots, perfis falsos ou sequestro de hashtags dão ao adversário uma história: o quadro proíbe tudo isso por escrito, e o material dos comandos é declarado como donativo em espécie.
-
Alargar com um rosto de fora e garantias
Uma figura respeitada fora da coligação assume a campanha e viaja às regiões onde o candidato teve maus resultados, enquanto ele responde aos medos com garantias simples e apoios moderados, sem largar as causas da base. No Chile, a médica Izkia Siches percorreu o país em 12 dias, de Arica a Los Lagos; Boric garantiu que o seu governo não vinha tirar nada a ninguém e recebeu o apoio de Lagos e Bachelet.
Como montar, passo a passo
- Funciona quando
- Funciona numa segunda volta ou reta final em que o adversário mobiliza pelo medo e o candidato é fraco em regiões ou setores inteiros.
- Não usar quando
- Não funciona se o rosto é só simbólico ou se as garantias se transformam em troca de programa: abandonar as causas que mobilizam a base perde quem fazia a campanha.
- Semana −4 Escolher uma figura respeitada fora da coligação e dar-lhe um papel real
- Semana −4 Listar os medos que o adversário explora e escrever uma garantia simples para cada um
- Semana −4 Planear o percurso do rosto pelas comunas prioritárias do mapa
- Semana −3 Fazer encontros pequenos com comerciantes, dirigentes associativos e profissionais locais
- Semana −3 Mostrar apoios que tranquilizam os indecisos, sem esconder a coligação
- Semana −2 Aceitar poucos debates de grande audiência e explicar que a prioridade é o terreno
- Semana −1 Repetir em cada paragem as causas que mobilizam mulheres e jovens
Equipa
- Direção de campanha que alarga: viaja e fala com quem o candidato não alcança
- Agenda do percurso: monta as paragens seguindo o mapa de comunas prioritárias
- Comunicação: transforma cada medo do adversário numa garantia curta
O que medir: Pessoas que se inscreveram como voluntárias ou delegadas de mesa em cada paragem do percurso, registadas por comuna, não a audiência das ações.
Riscos a vigiar: Os rostos desgastam-se e popularidade de campanha não é capacidade de governo: promete só garantias que podes cumprir e nunca insultes quem votou no adversário.
-
Um delegado em cada mesa
Delegados acreditados acompanham cada mesa de voto da abertura à contagem, com suplentes e contacto no dia. No Chile, um comando pequeno como o de Colbún cobriu todas as suas mesas com 55 delegados.
Como montar, passo a passo
- Funciona quando
- Funciona em qualquer eleição em que a lei permite delegados de partido ou de candidatura e há comandos locais para os recrutar.
- Não usar quando
- Não uses os delegados para pressionar eleitores ou interferir no voto: observam e reclamam pelos canais legais, e mais nada.
- Semana −12 Recrutar delegados nos comandos locais, meses antes da eleição
- Semana −8 Formar no essencial: abertura, votação, contagem e reclamação pelos canais legais
- Semana −4 Cruzar a lista de mesas com os delegados disponíveis e assinalar as lacunas
- Semana −2 Recrutar no porta a porta e nos comandos para cada mesa vazia
- Semana −1 Confirmar um efetivo e um suplente para cada mesa, com contacto no dia
- Semana do dia D No dia, acompanhar da abertura à contagem e enviar o resultado de cada mesa
Equipa
- Coordenação de delegados: mantém a lista de mesas, efetivos e suplentes
- Comandos locais: recrutam e levam os delegados da sua zona
- Equipa jurídica: forma os delegados e responde a reclamações no dia
O que medir: Mesas com um delegado acreditado presente da abertura à contagem, em proporção ao total de mesas da tua zona.
Riscos a vigiar: Um delegado que interfere no voto torna-se caso legal e manchete: só pessoas acreditadas e formadas, que observam e reclamam pelos canais legais, com suplentes para quem faltar.
Praticar
Treina com as missões e situações do caso.
Decidir como a direção de campanha
Seis momentos da reviravolta chilena. Escolhe o que farias e vê o que aconteceu.
Plano em seis fases
A sequência chilena, condensada numa lista de verificação para uma reta final de quatro semanas.
A sequência chilena, condensada numa lista de verificação para uma reta final de quatro semanas. Ajusta-a ao teu calendário. O progresso fica guardado neste navegador.
1. Antes de precisar
2. Primeiras 72 horas
3. Abrir a campanha
4. Semanas de terreno
5. Última semana e dia D
6. Depois
Regras
A campanha de Boric fez da recusa de bots um argumento.
A campanha de Boric fez da recusa de bots um argumento. As regras abaixo valem para qualquer reta final.
- Só pessoas reais
- Nada de bots, contas falsas, seguidores comprados ou influenciadores pagos sem aviso. A campanha chilena disse em público que usava “pessoas de carne e osso”. Coordenar pessoas reais para dizerem o que pensam é permitido; o que as plataformas castigam é organizar gostos, seguidores ou hashtags em série para enganar o algoritmo. O X, por exemplo, proíbe trocar interações e usar uma hashtag em destaque para manipular a conversa.
- Período legal de propaganda
- No Chile, a propaganda da segunda volta só era permitida de 5 a 16 de dezembro. Confirma as datas e o período de reflexão na tua lei.
- Dinheiro às claras
- Donativos dentro dos limites legais e declarados; material dos comandos registado como donativo em espécie, como no Chile.
- Dados e consentimento
- Cartas e mensagens só com dados que a lei permite usar e com consentimento quando exigido (RGPD, LGPD brasileira ou a lei local).
- Hashtags e plataformas
- Não sequestres hashtags do adversário nem organizes denúncias em massa falsas. Denuncia discurso de ódio pelas regras das plataformas.
- Delegados dentro da lei
- Delegados acreditados, que observam e reclamam pelos canais legais; não interferem no voto.
- Transporte sem compra de votos
- Ajudar vizinhos a chegar ao local de voto é diferente de oferecer vantagens em troca do voto. Confirma o que a tua lei permite.
- Factos com fonte
- Responde a notícias falsas com factos verificados; nunca inventes nada sobre o adversário nem sobre os seus eleitores.
Limites
O que este método não faz, e quando falha.
- Depende do voto voluntário
- A reviravolta assentou em levar às urnas mais 1,25 milhões de pessoas. Com o voto obrigatório (reposto por uma reforma promulgada a 27 dez. 2022), a participação passou para cerca de 85% e esse reservatório desapareceu.
- Seguiram-se duas derrotas em referendo
- A 4 set. 2022, com voto obrigatório e 85,84% de participação, a proposta de Constituição foi rejeitada por 61,87%. Uma segunda proposta foi rejeitada a 17 dez. 2023.
- O mesmo adversário voltou e venceu
- A 14 dez. 2025, Kast derrotou a candidata da esquerda, Jeannette Jara, com 58,17% e venceu nas 16 regiões; tomou posse a 11 mar. 2026. Os analistas leram a eleição como um plebiscito ao governo Boric, cuja aprovação chegou a 27% em maio de 2025.
- A mobilização pelo medo é frágil
- O estratega da campanha reconheceu que o medo mobilizou. Sem um adversário que assuste, a mesma energia não aparece, e os críticos lembram que o “ele não” não basta.
- Rostos que se desgastam
- Siches foi a estrela da campanha e, como ministra do Interior, a pior avaliada do governo. Foi substituída a 6 set. 2022, na remodelação que se seguiu à derrota no plebiscito; meses antes, tinha-se retratado e pedido desculpa por uma acusação falsa contra o governo anterior. Popularidade de campanha não é capacidade de governar.
- Não há medição do efeito do porta a porta
- Não existe um total verificado de portas ou voluntários nem um estudo que isole o efeito do terreno; os apoios de antigos presidentes, os debates e os erros do adversário também contaram.
- Zonas cinzentas nas redes
- Alguns grupos de fãs tentaram “afogar” hashtags do adversário. É uma tática de risco que pode ser lida como manipulação; não a copies.
- Grupos soltos saem da linha
- Centenas de grupos autónomos dão energia, mas também podem produzir mensagens arriscadas. Foi por isso que a campanha definiu um quadro de orientações.
Verificar
Cinco perguntas, com a explicação depois de cada resposta.
Cinco perguntas, com a explicação depois de cada resposta.
Fontes
Playbook construído com relatos de organizadores (entrevistas e reportagens baseadas em conversas com eles), análises de dados eleitorais…
Playbook construído com relatos de organizadores (entrevistas e reportagens baseadas em conversas com eles), análises de dados eleitorais da DecideChile/Unholster, estudos académicos e imprensa publicados entre julho de 2021 e dezembro de 2025, e dados eleitorais oficiais. Todas as páginas foram abertas e lidas a 26 de outubro de 2026.
37 fontes
Quem fez
- CIPER (reproduzido pela Unholster): Una campaña territorial histórica: las desconocidas figuras de Kast y Boric que empujaron la votación récord de 8,3 millones de chilenos 5 jan. 2022
- Beers & Politics: “Las redes sociales tuvieron un rol protagónico en nuestra campaña con Boric”: entrevista a Tito Bofill y Nicole Otazo 11 fev. 2022
- The Clinic: Estratega de Boric: votante advirtió “una amenaza real” en segunda vuelta 23 dez. 2021
- La Tercera: Boric lanza campaña “1 millón de puertas” dez. 2021
- Página 19: Un Millón de Puertas por Boric: “Vamos a Llevar la Esperanza de Vivir Mejor a Lugares Donde aún no Hemos Llegado” dez. 2021
- Chilevisión: Con Jackson y Hassler al mando: así fue el inicio del masivo puerta a puerta por Boric en la RM 5 dez. 2021
- La Tercera: “La jefa”: el poder de Izkia Siches en el equipo del nuevo Presidente dez. 2021
- Interferencia: Poblaciones, memes y K-Pop: el esfuerzo de la ciudadanía independiente por levantar una campaña paralela por Boric 28 nov. 2021
- CNN Chile: Del estallido a la segunda vuelta: cómo los fans del K-pop se han organizado ante el escenario político chileno dez. 2021
Dados
- Ex-Ante (reproduzido pela Unholster): Perfil de los votantes: explosiva alza de participación de mujeres menores de 30 años pavimentó triunfo de Boric 21 dez. 2021
- Emol (reproduzido pela Unholster): Votación de las mujeres fue clave: participación aumentó 10 puntos y llegó al 59% de las habilitadas en el padrón 21 dez. 2021
- La Tercera (reproduzido pela Unholster): Mujeres menores de 30 años vs. hombres mayores de 70: los polos opuestos que revela el zoom regional 24 dez. 2021
- Wikipedia: 2021 Chilean general election (resultados do Servel)
- Wikipedia: 2021 Chilean presidential primaries
- Wikipedia: 2020 Chilean national plebiscite
- Wikipedia: 2022 Chilean national plebiscite
- Wikipedia: 2025 Chilean general election
- Wikipedia: Gabriel Boric
- Wikipedia: Izkia Siches
- Wikipedia: José Antonio Kast
- X Help Center: Platform manipulation and spam policy
Imprensa
- El País (reproduzido pela Unholster): Las cuatro semanas que dieron la victoria a Gabriel Boric 26 dez. 2021
- La Tercera: Despliegue regional, debates elegidos y franja electoral: los elementos que marcan el inicio oficial de las campañas de Boric y Kast 5 dez. 2021
- CIPER: Los ajustes de Boric, Sichel y Provoste para el segundo tiempo de la carrera presidencial: equipos, financiamiento y trabajo territorial 23 jul. 2021
- La Tercera: Partido Radical oficializa apoyo a Gabriel Boric en segunda vuelta y llama a “formar comandos autoconvocados” nov. 2021
- La Región Hoy: Izkia Siches llega a Valparaíso en gira «La Ruta de la Esperanza» por Gabriel Boric 9 dez. 2021
- El Mostrador: La épica que le dieron las RRSS a la campaña del Presidente electo 22 dez. 2021
- Ex-Ante: Los ajustes en el estilo y despliegue de campaña de Boric en la recta final 17 dez. 2021
Análise
- ROAR Magazine: Javiera Manzi e Karina Nohales, Chilean president Boric's election was a movement victory 11 mar. 2022
- Rosa-Luxemburg-Stiftung: Pierina Ferretti, Gabriel Boric Won in Chile Thanks to Popular Mobilization jan. 2022
- Timeline: Factor Izkia, trabajo territorial y apoyo de exmandatarios: analistas explican cómo Boric pasó del tercer lugar a arrasar en Antofagasta 21 dez. 2021
- Revista Crisis: Apuntes sobre la campaña digital de Boric 10 mar. 2022
- Semana / The Conversation: Alexis Apablaza-Campos, Revelan la minuciosa estrategia digital que en Chile llevó al triunfo a la izquierda 13 jan. 2022
- México y la Cuenca del Pacífico: Jinok Choi e Bernardita González Lustig, Movimientos sociopolíticos y K-global citizenship: el caso de Kpopers por Boric en Chile ago. 2024
- El Mostrador (reproduzido pela Unholster): Cristóbal Huneeus de DecideChile y la histórica participación en el balotaje 22 dez. 2021
- Ex-Ante: Las razones detrás de la aplastante derrota de Jeannette Jara 14 dez. 2025
- La Tercera: Una segunda vuelta previsible dez. 2025
Imagem: Fotografoencampana, CC BY-SA 4.0, via Wikimedia Commons (adapted)
Atualizado a 26 de outubro de 2026
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