Em 30 segundos
8 segundos de televisão. Com um partido pequeno e sem debates após o ataque à faca, Bolsonaro venceu a 2.ª volta de 2018 com 55,1% dos votos válidos.
Uma pirâmide de grupos de WhatsApp: poucos produtores, muitos administradores voluntários e milhões de pessoas comuns. A isso somavam-se envios em massa pagos por empresas, segundo a Folha.
Pessoas comuns compensaram a falta de tempo de antena. Listas compradas, dinheiro oculto e mentiras trouxeram processos e danos a não repetir.
Como ler este caso
Aqui não há toolkit para copiar. Há a mecânica do que funcionou, as linhas vermelhas que foram cruzadas (e o que custaram) e como responder quando este playbook for usado contra a tua campanha.
Se és novo nisto, começa pelos fundamentos, da meta de votos ao que diz a investigação. Ler os fundamentos
Quem fez
Os operadores raramente falaram em pormenor sobre o método; o que se sabe vem sobretudo de reportagens, de investigadores que monitorizaram…
Os operadores raramente falaram em pormenor sobre o método; o que se sabe vem sobretudo de reportagens, de investigadores que monitorizaram grupos públicos e dos tribunais.
Carlos Bolsonaro
Vereador do Rio de Janeiro, responsável pelas redes do pai
Segundo o próprio Jair Bolsonaro e a imprensa, tratou do marketing digital do pai desde 2010 e comandou as redes da campanha de 2018; em 2026 foi eleito senador por Santa Catarina.
FontesAM4 Brasil Inteligência Digital (Marcos Aurélio Carvalho)
Maior fornecedora declarada da campanha de 2018
Segundo a Folhapress, recebeu cerca de 650 mil reais; Carvalho disse que a empresa mantinha listas de difusão, grupos estaduais e grupos para denunciar notícias falsas e, na 2.ª volta, realizou os filmes. Na comissão parlamentar de inquérito das fake news (2020), admitiu ter contratado a Yacows para um único envio a cerca de 8 mil doadores, a avisar de um novo número; negou envios em massa, e nada além disso foi provado contra a campanha.
FontesAdministradores voluntários de grupos
Operadores da rede de grupos e listas de difusão
Apoiantes como José Raimundo, que administrava um grupo de eleitores de São Paulo, e Carlos Nacli, ligado ao movimento Nas Ruas, que coordenava listas de difusão, descreveram à imprensa como a rede funcionava.
FontesPatrícia Campos Mello
Jornalista da Folha de S.Paulo, autora de A Máquina do Ódio
Revelou, a 18 de outubro de 2018, a compra por empresas de pacotes de envio em massa contra o PT; contou a investigação e o assédio de que foi alvo no livro de 2020.
FontesFabrício Benevenuto (UFMG)
Cientista informático, criador do Monitor de WhatsApp
Construiu o sistema que acompanhava centenas de grupos políticos públicos e permitiu a jornalistas e verificadores de factos ver o que circulava.
FontesCristina Tardáguila (Agência Lupa) e Pablo Ortellado (USP)
Verificadora de factos e investigador
Com a UFMG, verificaram as 50 imagens mais partilhadas em 347 grupos e pediram ao WhatsApp, no New York Times, limites ao reencaminhamento.
FontesDavid Nemer
Investigador em estudos dos media (Universidade da Virgínia)
Acompanhou grupos pró-Bolsonaro desde março de 2018 e descreveu a estrutura em pirâmide e os três perfis de utilizadores.
FontesTribunal Superior Eleitoral
Justiça Eleitoral brasileira; relator Luis Felipe Salomão
A 28 de outubro de 2021 rejeitou por 7 a 0 a cassação da candidatura, mas reconheceu os envios em massa e a desinformação e fixou uma tese para eleições futuras.
FontesWhatsApp
Plataforma; Ben Supple, responsável por políticas públicas e eleições
Admitiu em 2019 que empresas de envio em massa violaram os seus termos na eleição brasileira e limitou o reencaminhamento a cinco conversas.
Fontes
Nas palavras de quem fez
Explicações de operadores e de quem investigou o caso, em paráfrase.
Explicações de operadores e de quem investigou o caso, em paráfrase. Nenhuma mensagem que ataque grupos é aqui reproduzida.
O filho Carlos tratava do seu marketing e da sua campanha desde 2010 e foi quem começou a campanha nas redes sociais.
Jair Bolsonaro, Entrevista à Jovem Pan, citada na Wikipédia (artigo Carlos Bolsonaro)
Por volta de 2010, ao pesquisar o nome do pai no Google, só encontrou resultados negativos; criou então um blogue com fotografias da família para construir uma imagem positiva.
Carlos Bolsonaro, Relato citado na Wikipédia (artigo Carlos Bolsonaro)
“Abordámos diretamente 10.000 pessoas de todas as partes do Brasil.”
Carlos Nacli, coordenador de listas de difusão, Entrevista ao El País, citada pela Folha (DN, 20 out. 2018)
Foi convidado para administrar o grupo, retirava quem criasse confusão e dizia controlar as notícias falsas, embora afirmasse nunca ter visto nenhuma.
José Raimundo, administrador de um grupo paulista, Folha de S.Paulo, reproduzida pelo DN, 20 out. 2018
Mais 6 citações
A atividade era voluntária, mas não amadora na produção, e coordenada entre plataformas, com orientações diferentes para o YouTube e o Facebook.
Mariana Valente (InternetLab), Folha de S.Paulo, reproduzida pelo DN, 20 out. 2018
A desinformação descia por uma pirâmide: no topo, pequenos grupos de influenciadores criavam o conteúdo; no meio, os apoiantes mais devotos amplificavam; na base, brasileiros comuns recebiam tudo.
David Nemer, Entrevista à UVA Today, 4 set. 2019
Os influenciadores eram o grupo mais pequeno, talvez 5% dos utilizadores dos grupos políticos, e não os mais ativos no debate: produziam o conteúdo e coordenavam protestos.
David Nemer, Artigo no Guardian, resumido pela Exame, 25 out. 2018
O WhatsApp estava a dividir o país em dois grandes grupos.
Cristina Tardáguila (Agência Lupa), Poynter, 17 out. 2018
Na eleição brasileira de 2018 atuaram empresas de envio massivo de mensagens que violaram os termos de utilização da aplicação.
Ben Supple (WhatsApp), Festival Gabo, Colômbia (Olhar Digital, 8 out. 2019)
Havia muitas provas de que pessoas próximas de Bolsonaro atuavam desde 2017 para atacar adversários, mas faltavam dados sobre o conteúdo e o alcance das mensagens para cassar a candidatura.
Luis Felipe Salomão (relator no TSE), Voto no TSE, 26 out. 2021 (A Gazeta)
A história
Bolsonaro chegou a 2018 com pouco tempo de antena, pouco dinheiro declarado e anos de presença nas redes.
Bolsonaro chegou a 2018 com pouco tempo de antena, pouco dinheiro declarado e anos de presença nas redes. A campanha decorreu em grande parte dentro de grupos fechados, longe dos olhos da imprensa e da Justiça. Isso tornou difícil, até hoje, medir o que funcionou e quem pagou o quê.
- 8 s
- de tempo de antena na televisão e na rádio na 1.ª volta
- R$ 2,5 M
- de gastos declarados da campanha, contra R$ 37,5 M de Haddad
- 4 em 50
- das imagens mais partilhadas em 347 grupos eram totalmente verdadeiras
- 55,1%
- dos votos válidos na 2.ª volta, a 28 de outubro de 2018
De 2018 ao julgamento
- mar. 2018O investigador David Nemer começa a acompanhar grupos de WhatsApp pró-Bolsonaro.
- jul. 2018O WhatsApp começa a testar limites: reencaminhar para até 20 conversas no mundo e cinco na Índia.
- 6 set. 2018Bolsonaro é esfaqueado em Juiz de Fora. Não volta a debates e concentra a campanha nas redes.
- 7 out. 20181.ª volta: cerca de 46% dos votos válidos.
- 17 out. 2018Lupa, USP e UFMG mostram que só 4 das 50 imagens mais partilhadas em grupos eram verdadeiras e pedem ao WhatsApp limites temporários.
- 18 out. 2018A Folha revela que empresas compravam pacotes de envio em massa contra o PT, com contratos de até 12 milhões de reais cada.
- 28 out. 20182.ª volta: Bolsonaro vence com 55,1%.
- jan. 2019O WhatsApp limita o reencaminhamento a cinco conversas em todo o mundo.
- out.–dez. 2019O WhatsApp admite que empresas de envio em massa violaram os seus termos na eleição; o TSE proíbe o envio em massa na Resolução 23.610/2019.
- 28 out. 2021O TSE rejeita por 7 a 0 a cassação da candidatura, reconhece envios em massa e desinformação sem ligação provada à campanha e aprova a tese para o futuro.
Três camadas
A investigação e as reportagens descrevem três camadas que empurravam o mesmo conteúdo. Só a primeira era assumida pela campanha.
- Comando familiarAs contas do candidato e dos filhos, geridas por Carlos Bolsonaro a partir de casa, com vídeos e transmissões em direto do candidato.
- Rede voluntária em pirâmidePoucos influenciadores a produzir, apoiantes devotos a administrar grupos por estado e cidade, e milhões de pessoas comuns a receber e a reencaminhar.
- Envios pagos e opacosAgências que, segundo a Folha, vendiam envios em massa a empresários. O TSE reconheceu os envios, mas não encontrou prova de que a candidatura os tivesse contratado.
O que não se sabe. Nenhum estudo isola o efeito do WhatsApp nos votos de 2018.
Os grupos eram cifrados, só os públicos podiam ser observados e os próprios investigadores avisaram que a amostra podia ter distorções. A desinformação circulou também do lado contrário, embora em menor escala: dos 123 boatos analisados por três agências de verificação de factos em 70 dias, 104 prejudicavam Haddad. O esfaqueamento, a rejeição do PT e o contexto económico também pesaram. Os depoimentos de operadores são poucos e foram dados à imprensa durante a campanha.
O terreno
A rede encaixou num ambiente muito específico: uma aplicação de mensagens que funcionava como jornal, regras que ainda não previam os…
A rede encaixou num ambiente muito específico: uma aplicação de mensagens que funcionava como jornal, regras que ainda não previam os envios em massa e uma campanha sem televisão nem dinheiro.
Plataformas
- Grupos de WhatsApp
- Grupos de até 256 pessoas por estado, cidade ou tema, administrados por voluntários. Cifrados de ponta a ponta: só os grupos públicos podiam ser monitorizados por investigadores e jornalistas.
- Listas de difusão
- Só o administrador publica e cada lista chegava a 256 contactos, que podiam reencaminhar. Era o canal para semear vídeos e imagens na rede.
- Agências de envio em massa
- Segundo a Folha (18 out. 2018), agências como Quickmobile, Yacows, Croc Services e SMS Market vendiam envios de centenas de milhões de mensagens, de 0,08 a 0,40 reais cada, com bases próprias segmentadas por região e rendimento; a reportagem citou a Havan entre as compradoras. Luciano Hang, dono da Havan, negou, e em 2020 um juiz de primeira instância condenou a Folha e a repórter a indemnizá-lo; o jornal recorreu. O WhatsApp disse depois que empresas de envio em massa violaram os seus termos; a compra de envios por pessoas ligadas à campanha não foi provada no TSE.
- YouTube e Facebook
- Onde os influenciadores produziam e publicavam vídeos e onde os grupos combinavam ações, como subscrições em massa no canal do PSL.
- Televisão e rádio
- Bolsonaro tinha 8 segundos de tempo de antena; Alckmin, 5 minutos e 32 segundos, e terminou com menos de 5% dos votos.
Condições locais
- Cerca de 6 em cada 10 eleitores de Bolsonaro liam notícias partilhadas no WhatsApp, contra 38% dos de Haddad (Datafolha, outubro de 2018).
- 47% dos utilizadores de WhatsApp diziam confiar no que recebiam pela aplicação (Datafolha).
- Em 2018 uma mensagem podia ser reencaminhada para até 20 conversas de uma vez; o limite de cinco só chegou ao mundo inteiro em janeiro de 2019.
- Os donativos de empresas a campanhas estavam proibidos; a Folha descreveu a compra de envios por empresários como donativo não declarado.
- Depois do esfaqueamento de 6 de setembro, Bolsonaro não foi a nenhum debate e falava sobretudo através das próprias redes.
- Partido pequeno (PSL) e campanha declarada de cerca de 2,5 milhões de reais, contra 37,5 milhões de Haddad.
O método
Esta é a descrição do que foi documentado, não uma receita.
Esta é a descrição do que foi documentado, não uma receita. A parte legítima (presença própria, voluntários, formato nativo) está misturada com práticas ilegais e danosas; a secção de lições separa as duas.
Três apoios
- Presença própria construída cedo
- Quase oito anos de blogue, perfis e vídeos antes de 2018. Quando a televisão faltou, a audiência já existia.
- Distribuição por gente comum
- O conteúdo chegava pelas mãos de familiares, colegas e vizinhos, nos grupos de família e de bairro, onde a confiança é maior do que na imprensa.
- Emoção e identidade
- Áudios de “gente como nós”, memes e vídeos curtos, pensados para circular sem contexto, o que também facilitou a mentira.
Como uma peça circulava
Segundo a investigação de Nemer, a monitorização da UFMG e as reportagens de 2018, uma peça percorria mais ou menos estes passos.
- Produzir Pequenos grupos de influenciadores criavam vídeos, imagens e áudios, muitas vezes sem fonte e sem autoria.
- Semear Listas de difusão e grupos-mãe por estado colocavam a peça na rede de uma só vez.
- Replicar Administradores e membros devotos reencaminhavam para dezenas de grupos; um mesmo eleitor estava às vezes em 40 grupos.
- Filtrar a bolha Quem discordava era removido. Os grupos ficavam homogéneos e pouco falavam com o outro lado.
- Coordenar ações Os grupos combinavam tarefas noutras plataformas, como subscrições em canais do YouTube e campanhas contra anúncios de artistas.
- Saltar para fora A peça saía dos grupos políticos para os de família, trabalho e igreja, onde ganhava a confiança de quem a reencaminhava.
- Acelerar com dinheiro Segundo a Folha, envios em massa pagos por empresas a partir de bases compradas multiplicavam o alcance. Foi essa a parte que o TSE considerou ilícita.
E recomeça.
O que aprender e o que nunca copiar
A rede de 2018 mostrou que pessoas reais, no canal e no formato certos, valem mais do que tempo de antena.
A rede de 2018 mostrou que pessoas reais, no canal e no formato certos, valem mais do que tempo de antena. Mostrou também o custo de misturar isso com dinheiro oculto, listas compradas e mentira.
Nunca copiar
6
- Envio em massa e listas compradas
- O WhatsApp admitiu que empresas de envio em massa violaram os seus termos em 2018. O TSE proibiu a prática a partir de 2020 e fixou, em 2021, que ela pode levar à cassação; Alexandre de Moraes avisou que quem o fizesse em 2022 seria preso. As ações no TSE também acusavam o uso fraudulento de nomes e números de contribuinte (CPF) de idosos para registar os cartões SIM usados nos envios; o tribunal considerou as provas insuficientes para cassar a candidatura.
- Dinheiro de empresas por fora
- A Folha revelou contratos de até 12 milhões de reais pagos por empresários, o que a lei trata como donativo empresarial proibido e não declarado. O caso deu origem a ações no TSE e a uma investigação; o tribunal reconheceu os envios, mas não conseguiu ligá-los à candidatura.
- Desinformação
- Só 4 das 50 imagens mais partilhadas em grupos políticos eram totalmente verdadeiras. O resultado foi mais polarização e, segundo Nemer, um canal de radicalização que continuou ativo durante o governo.
- Desumanizar grupos
- Os grupos espalharam imagens contra os direitos das pessoas LGBT e das mulheres e uma alegação falsa sobre material escolar, segundo a BBC e a DW. Atacar grupos inteiros fere pessoas e é inaceitável em qualquer campanha.
- Assédio a jornalistas
- Patrícia Campos Mello foi alvo de ataques e ameaças depois da reportagem. A Justiça de São Paulo condenou Bolsonaro a indemnizá-la por uma insinuação sexual, valor elevado em 2022 para 35 mil reais.
- Estruturas opacas de ataque
- O chamado gabinete do ódio, que segundo a imprensa nasceu na campanha de 2018, tornou-se objeto do inquérito 4.781 do STF (Supremo Tribunal Federal); em 2022 a Polícia Federal disse que a estrutura foi usada por uma milícia digital.
O que aprender
6
- Construir audiência própria com anos de antecedência
- A presença de Bolsonaro nas redes começou por volta de 2010. Uma campanha progressista pode fazer o mesmo de forma ética: canal próprio, lista com consentimento e publicação regular fora do período eleitoral. O playbook Janonismo, neste site, mostra o mesmo princípio aplicado por uma campanha progressista em 2026.
- Falar no formato do grupo de família
- Áudios curtos, vídeos verticais e imagens que se percebem sem contexto. Usa o formato, mas com conteúdo verdadeiro, com fonte e assinado por quem fala.
- Dar um papel claro aos voluntários
- Os administradores de grupos por cidade e por tema foram a espinha dorsal da rede. Recruta voluntários com consentimento, dá-lhes regras públicas (sem desinformação, sem ataques pessoais) e formação para verificar antes de reencaminhar.
- Orientar cada plataforma à sua maneira
- A rede tinha orientações diferentes para o YouTube, o Facebook e o WhatsApp. Faz o mesmo com tarefas concretas para voluntários, nunca com contas extra nem interação falsa.
- Não depender da televisão
- Com 8 segundos de tempo de antena, a distribuição orgânica compensou a falta de televisão. Investe cedo em canais próprios e na rede de apoiantes; o playbook Janonismo mostra como um canal de WhatsApp com regras e registo na Justiça Eleitoral o fez em 2026.
- Depoimentos de gente comum
- Os áudios de “gente como nós” criavam proximidade. Usa depoimentos reais, com autorização e o nome de quem fala, nunca histórias inventadas.
Como responder
6
- Monitorizar os grupos públicos
- O Monitor de WhatsApp da UFMG permitiu ver quase em tempo real o que circulava. Acompanha grupos públicos e temas do momento para saberes o que vai chegar antes de chegar.
- Responder através de mensageiros de confiança
- A base da pirâmide desconfiava da imprensa. A correção tem de vir de familiares, colegas e lideranças locais, nos mesmos grupos e no mesmo formato curto.
- Corrigir sem amplificar
- Corrigir funciona e o efeito de ricochete é raro, segundo o Debunking Handbook 2020; o risco é reencaminhar a peça falsa. Começa pelo facto verdadeiro, menciona o boato uma única vez, explica porque engana e repete o facto, sem reenviar a imagem original. Boatos que não estão a crescer podem ficar apenas sob monitorização.
- Avisar antes (prebunking)
- Explica à tua rede, antes da reta final, que vão circular imagens e áudios sem fonte, como reconhecê-los e onde verificar. Quem foi avisado reencaminha menos.
- Reunir provas para a Justiça
- As ações de 2018 falharam por falta de capturas de ecrã, números e conteúdo das mensagens. Guarda capturas, números de origem, datas e ligações e denuncia ao tribunal eleitoral e à plataforma.
- Exigir fricção nas plataformas
- Depois do limite de cinco reencaminhamentos, o WhatsApp disse que o volume de reencaminhamentos caiu 25% no mundo. Defende limites, transparência e acesso dos investigadores aos dados.
Praticar
Treina com as missões e situações do caso.
Decidir como a campanha
Seis momentos do ponto de vista de uma campanha democrática perante este playbook. Escolhe e vê o que a evidência sugere.
Regras
O que a lei, os tribunais e as plataformas disseram sobre o que aconteceu em 2018 e as regras que vieram depois.
O que a lei, os tribunais e as plataformas disseram sobre o que aconteceu em 2018 e as regras que vieram depois.
- Donativos de empresas são proibidos
- A Folha descreveu a compra de envios por empresários como donativo empresarial não declarado, proibido pela lei eleitoral brasileira.
- Só listas voluntárias
- A lei permite usar apenas contactos que a campanha obteve de forma voluntária. Comprar bases de terceiros é ilegal.
- Envio em massa proibido
- A Resolução 23.610/2019 do TSE proibiu o envio em massa de mensagens sem consentimento a partir das eleições de 2020.
- A tese do TSE (2021)
- Os envios em massa de desinformação por aplicações podem configurar abuso de poder económico e uso indevido dos meios de comunicação e levar à cassação, consoante a gravidade. O tribunal enumerou cinco critérios: conteúdo, alcance, escala, participação do candidato e financiamento por empresas.
- Termos do WhatsApp
- O envio automatizado e em massa viola os termos de utilização. Em 2019 a empresa bania mais de 2 milhões de contas por mês em todo o mundo e começou a processar agências de envio.
- Limite de reencaminhamento
- Desde janeiro de 2019, uma mensagem só pode ser reencaminhada para cinco conversas de uma vez.
- O assédio tem consequências
- O Tribunal de Justiça de São Paulo manteve em 2022 a condenação de Bolsonaro por ofender Patrícia Campos Mello, com uma indemnização de 35 mil reais.
- Proteção de dados
- Desde 2020 a LGPD (lei brasileira de proteção de dados) também se aplica às campanhas no Brasil. Na União Europeia, o RGPD trata a opinião política como um dado sensível, e o Regulamento (UE) 2024/900 só permite segmentar anúncios políticos com consentimento explícito e sem dados sensíveis e exige rótulo e aviso de transparência nos pagos. Desde outubro de 2025, a Meta e a Google não aceitam anúncios políticos ou sobre temas sociais na UE. Ver a ficha «Lei e plataformas na União Europeia» nos Fundamentos.
Limites
O que este método não faz, e quando falha.
- O efeito não pode ser medido
- Com grupos cifrados e muitos outros fatores (o esfaqueamento, a rejeição do PT, a economia), não há estudo que diga quantos votos o WhatsApp mudou.
- A Justiça não fechou o circuito
- O TSE reconheceu envios em massa e desinformação, mas não encontrou prova de que pessoas ligadas à candidatura os tivessem comprado. Parte das provas nunca chegou ao processo.
- Não foi só de um lado
- Os investigadores encontraram conteúdo enganador em grupos de esquerda e de direita, embora a maioria dos boatos verificados prejudicasse Haddad.
- A plataforma mudou as regras
- Limite de cinco reencaminhamentos, banimento de agências e proibição do TSE: o que funcionou em 2018 foi depois bloqueado ou criminalizado.
- O que veio depois
- Bolsonaro foi declarado inelegível pelo TSE em junho de 2023, por factos de 2022. A 11 de setembro de 2025, o STF condenou-o a 27 anos e 3 meses por conspiração golpista, e foi preso em novembro de 2025. Em 2026, Carlos Bolsonaro foi eleito senador por Santa Catarina e Flávio Bolsonaro perdeu a 2.ª volta para Lula. Nenhuma destas decisões julgou a campanha digital de 2018.
Verificar
Cinco perguntas, com a explicação depois de cada resposta.
Cinco perguntas, com a explicação depois de cada resposta.
Fontes
Este estudo de caso foi construído com reportagens de 2018 a 2026, investigação sobre grupos públicos de WhatsApp, decisões do TSE e…
Este estudo de caso foi construído com reportagens de 2018 a 2026, investigação sobre grupos públicos de WhatsApp, decisões do TSE e declarações da plataforma. Páginas consultadas a 26 de outubro de 2026.
31 fontes
Quem fez
- Diário de Notícias (Folha de S.Paulo): A tática dos eleitores de Bolsonaro no Whatsapp 20 out. 2018
- Wikipédia: Carlos Bolsonaro
Dados
- Poder360: Desde 1994, só Dilma e FHC foram eleitos com maior tempo de TV 4 set. 2022
- Jovem Pan: Campanha de Haddad gastou 15 vezes mais que a de Bolsonaro 18 nov. 2018
- Wikipedia: 2018 Brazilian presidential election
- Migalhas: TSE rejeita cassação da chapa Bolsonaro-Mourão 28 out. 2021
- Wikipedia: Trial of Jair Bolsonaro
- Wikipedia: Jair Bolsonaro
Imprensa
- Folha de S.Paulo (via Bem Paraná): Empresários bancam campanha contra o PT pelo WhatsApp 18 out. 2018
- Correio (Estadão Conteúdo): Bolsonaro dobra aposta em Carlos para campanha nas redes sociais 23 jan. 2022
- Jornal Opção: Livro de jornalista atacada por Bolsonaro analisa a construção da “máquina do ódio” 2 ago. 2020
- DW (via IHU Unisinos): Como 2018 mudou a forma de fazer política no Brasil 30 out. 2018
- Nieman Lab: WhatsApp limits message forwarding to fight misinformation jan. 2019
- Olhar Digital: WhatsApp admite envio ilegal de mensagens durante as eleições de 2018 8 out. 2019
- A Gazeta: TSE tem maioria contra cassação de Bolsonaro e critica WhatsApp nas eleições 28 out. 2021
- CNN Brasil: TSE rejeita por unanimidade ações que pedem cassação de Bolsonaro e Mourão 9 fev. 2021
- Tecnoblog: Disparos em massa via WhatsApp vão dar cadeia, avisa Alexandre de Moraes 28 out. 2021
- Brasil de Fato: Justiça mantém condenação de Bolsonaro por ofender Patrícia Campos Mello 29 jun. 2022
- Congresso em Foco: Carol de Toni e Carlos Bolsonaro conquistam as vagas de SC no Senado 4 out. 2026
- TechCrunch: WhatsApp rolls out new limit on message forwards (queda de 25% em 2019) 7 abr. 2020
- BNews (Folhapress): Bolsonaro nomeia para transição dono da maior fornecedora da campanha 6 nov. 2018
- Jornal de Brasília: Empresa que atuou em campanha de Bolsonaro diz que ex-funcionário mentiu em CPI 4 mar. 2020
- Poder360: Folha de S.Paulo é condenada a indenizar Luciano Hang, dono da Havan (1.ª instância) 5 dez. 2020
Análise
- Agência Pública: A Máquina do Ódio, com Patrícia Campos Mello (podcast) 12 mar. 2021
- Poynter: Lupa, USP e UFMG: as 50 imagens mais compartilhadas em grupos de WhatsApp 17 out. 2018
- BBC News Brasil (via Jornal Grande Bahia): Uma semana dentro de 272 grupos políticos no WhatsApp 19 out. 2018
- UVA Today: Q&A: What Brazilian presidential election can teach us about fake news (David Nemer) 4 set. 2019
- Exame: Os 3 perfis de usuários do WhatsApp que ajudam a eleger Bolsonaro (David Nemer, The Guardian) 25 out. 2018
- Center for an Informed Public (UW): David Nemer on misinformation and WhatsApp in Brazil 4 mar. 2021
- Wikipédia: Gabinete do ódio
- Lewandowsky et al.: The Debunking Handbook 2020 (efeito ricochete) consultado a 26 out. 2026
Atualizado a 26 de outubro de 2026
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