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Argentina · 2023

Do outro lado: caso de estudo, não modelo

Do estúdio de TV ao feed

Em 2023, Javier Milei chegou à presidência da Argentina com cortes de TV, fãs e streaming. Este estudo de caso mostra como funcionou, o que nunca copiar e como responder.

Caso documentado pelo Chequeado e pela rede CLIP, pela Anistia Internacional Argentina, por Repórteres sem Fronteiras, pelo coletivo Periodistas Argentinas, por pesquisadores da UNSAM e das universidades Austral e Internacional da Catalunha e pela imprensa argentina. Estudo de caso independente; não reproduz nem liga para contas ou conteúdo extremista.

Em 30 segundos

  1. 29,99% → 55,65%. Milei ficou em segundo no 1.º turno (Massa teve 36,78%) e venceu o 2.º, em 19 de novembro de 2023, com 14,55 milhões de votos.

  2. 83% dos vídeos do maior canal de fãs vinham de outros meios, como cortes de entrevistas de TV. A equipe de TikTok tinha 21 e 22 anos.

  3. Ao lado disso, segundo checadores e ONGs, uma rede de contas e operadores incluiu contas inautênticas, desinformação e assédio a jornalistas.

  4. Pode aprender: formato nativo, várias camadas de criadores reais, falar do cotidiano dos jovens. Nunca copie: contas falsas, deepfakes, campanhas de assédio.

  5. Como responder: ter mensageiros próprios antes da crise, não amplificar provocações e documentar e denunciar o que viola a lei.

Como ler este caso

Aqui não há toolkit para copiar. Há a mecânica do que funcionou, as linhas vermelhas que foram cruzadas (e o que custaram) e como responder quando este playbook for usado contra você.

Ver as lições Como responder

Se você é novo nisso, comece pelos fundamentos, da meta de votos ao que diz a pesquisa. Ler os fundamentos

Quem fez

Parte da equipe digital de Milei deu entrevistas em 2023; o principal estrategista, Santiago Caputo, praticamente não dá entrevistas e…

Parte da equipe digital de Milei deu entrevistas em 2023; o principal estrategista, Santiago Caputo, praticamente não dá entrevistas e recusou falar com a imprensa que o perfilou. O resto do caso foi documentado por checadores, ONGs, pesquisadores e jornalistas. Esta página não traz links para contas do partido, de operadores nem de influenciadores.

  • Santiago Caputo

    Consultor político, principal estrategista de Milei; começou a carreira com Jaime Durán Barba

    Conheceu Milei em 2021, deixou a consultoria Move para a campanha de 2023 e foi chamado por Milei de "arquiteto" da vitória; a imprensa atribui-lhe, com base em fontes anônimas, a supervisão do aparato digital do governo.

    Fontes
  • Fernando Cerimedo

    Consultor digital (grupo Numen); dono do domínio do site La Derecha Diario, segundo o Chequeado

    Foi chefe de comunicação da campanha presidencial de 2023 (sem cobrar, segundo ele), depois de trabalhar para Bolsonaro; disse à imprensa controlar cerca de 50 mil contas para monitorar a conversa e depois se distanciou do círculo de Milei, segundo o La Nación.

    Fontes
  • Iñaki Gutiérrez e Eugenia Rolón

    Gestores das contas de TikTok de Milei e de Victoria Villarruel (22 e 21 anos em 2023)

    Fizeram os vídeos curtos da campanha, com perguntas e respostas e temas do cotidiano jovem, e explicaram a estratégia em entrevistas depois da vitória.

    Fontes
  • Santiago Oría

    Cineasta, diretor dos spots de campanha; depois diretor de Produção Audiovisual da Presidência

    Fez os spots de 48 segundos para a TV, pensados para mostrar um Milei mais calmo a eleitores mais velhos, enquanto o TikTok falava com os jovens.

    Fontes
  • Tomás Jurado e Mariano Pérez

    Criadores do canal de YouTube "El Peluca Milei" e dos streams BreakPoint

    Recortavam entrevistas de TV e faziam streams a favor de Milei; o canal de Jurado tinha mais de 900 mil inscritos em 2023 e, segundo o Perfil, gravavam nos escritórios da corretora de Ramiro Marra, candidato do partido. Os dois viviam da monetização das próprias publicações, segundo o Letra P; em 2024 Jurado virou braço direito de Juan Doe na Casa Rosada.

    Fontes
  • Juan Doe e Daniel Parisini (“Gordo Dan”)

    Diretor de estratégia digital do governo e streamer; figuras de Las Fuerzas del Cielo

    Segundo o Letra P (nov. 2024), eram tuiteiros que ganharam projeção na campanha e que Caputo acolheu em Las Fuerzas del Cielo: Caputo tem na Casa Rosada uma sala para o grupo, liderado por Doe; Parisini abriu um canal de streaming em 2024 e expôs sua dependência de Caputo.

    Fontes
  • Chequeado e rede CLIP ("Mercenarios Digitales")

    Checador argentino e consórcio latino-americano de jornalismo investigativo

    Investigou a trajetória de Cerimedo, o La Derecha Diario e as alegações falsas que publicou, e depois documentou os deepfakes de Macri e Lospennato de maio de 2025.

    Fontes
  • Anistia Internacional Argentina

    ONG de direitos humanos (diretora executiva Mariela Belski)

    Levou à Comissão Interamericana, em julho de 2024 e em abril de 2026, casos de assédio online a jornalistas em que o próprio presidente aparece como principal agressor.

    Fontes
  • Pesquisadores acadêmicos

    Candela Cuenca (UNSAM); Núria Roca Trenchs (UIC) e Damián Fernández Pedemonte (Univ. Austral)

    Mediram como o YouTube de fãs reciclava a TV e analisaram 200 vídeos de TikTok de Milei e Trump, encontrando estética juvenil, polarização afetiva e, em alguns casos, ódio e desinformação.

    Fontes

Nas palavras de quem fez

Paráfrases de declarações da equipe e de operadores, relatadas pela imprensa, e conclusões de pesquisadores e ONGs.

Paráfrases de declarações da equipe e de operadores, relatadas pela imprensa, e conclusões de pesquisadores e ONGs. Números ditos pelos próprios entrevistados não foram verificados. Insultos e slogans contra grupos não são reproduzidos.

  • Disseram que falavam das preocupações diárias dos jovens (sair de casa dos pais, trabalhar na própria área, chegar ao fim de semana) e que os políticos tradicionais lhes falavam de cima. Rolón afirmou que a campanha custou zero pesos em anúncios e equipe.

    Iñaki Gutiérrez e Eugenia Rolón, equipe de TikTok, Meganoticias, entrevista, 4 dez. 2023

  • Afirmou que a campanha tinha chegado a mais de 300 milhões de pessoas, com média de seis milhões de visualizações por vídeo. São números dele, não auditados.

    Iñaki Gutiérrez, Perfil, "El ejército de Milei en las redes, uno por uno", 15 set. 2023

  • Explicou que os spots serviam para chegar a adultos e idosos, menos atraídos pelo estilo online, mostrando um Milei mais sereno; depois das primárias, a campanha devia arriscar menos e ser mais precisa.

    Santiago Oría, diretor dos spots, Letra P, "Austeridad y precisión", 23 set. 2023

  • Disse aos jornalistas da investigação Mercenarios Digitales que usa contas falsas para influenciar algoritmos, não para atacar adversários, e chamou de "chiquilinadas" as notícias falsas do La Derecha Diario.

    Fernando Cerimedo, consultor digital, Chequeado/CLIP, "La opaca historia de Fernando Cerimedo", 31 jul. 2023

Mais 6 citações

A história

Em menos de três anos, um comentarista de TV eleito deputado em 2021 tornou-se presidente.

Em menos de três anos, um comentarista de TV eleito deputado em 2021 tornou-se presidente. A campanha teve pouco dinheiro declarado, muitos criadores e uma estratégia de agenda feita de choque, símbolos e cortes. Depois da posse, o mesmo aparato passou a ser usado para governar e a ser investigado.

55,65%
de Milei no segundo turno de 19 nov. 2023, com 14,55 milhões de votos
19,9 mi × 162 mil
visualizações no TikTok de Milei e de Massa, segundo a consultoria Ad Hoc (citada pelo Perfil, set. 2023)
83%
dos vídeos do canal de fãs "El Peluca Milei" na campanha vinham de outros meios, sobretudo TV (UNSAM)
111 de 257
casos de violência contra jornalistas até nov. 2025 tiveram o presidente como agressor principal (FOPEA, via Anistia)

De 2021 a 2026

  1. 2021Milei disputa a eleição legislativa em Buenos Aires; conhece Santiago Caputo por meio de Ramiro Marra. Cerca de 140 militantes não pagos atuam como figurantes num spot, segundo Santiago Oría.
  2. 4 nov. 2022Fernando Cerimedo faz uma live chamada "Brasil fue robado", com cerca de 400 mil pessoas, questionando com informação falsa a vitória de Lula; o TSE suspende contas do La Derecha Diario Brasil e a dele.
  3. mai. 2023Cerimedo, já chefe de comunicação da campanha, diz à imprensa controlar cerca de 50 mil contas para monitorar a conversa e defende "campanhas negativas".
  4. 13 ago. 2023Milei fica em primeiro nas primárias abertas (PASO), com cerca de 30%. Os vídeos de fãs passam de um milhão de visualizações.
  5. 22 out. 2023Primeiro turno: Massa 36,78%, Milei 29,99%, Bullrich 23,81%. Bullrich e Macri apoiam Milei; os dois lados usam imagens geradas por IA e campanhas de medo.
  6. 19 nov. 2023Milei vence o segundo turno com 55,65%. Toma posse em 10 de dezembro; a RSF alerta para a sua agressividade com a imprensa.
  7. 2024Segundo o La Política Online, Caputo pede ao governo um corte de gastos por semana para alimentar as redes. Em julho, a Anistia relata à CIDH assédio a cerca de 30 jornalistas; em novembro, é lançada a agrupação Las Fuerzas del Cielo, que se definiu, em sentido figurado, como "braço armado" de Milei e foi alvo de denúncia judicial.
  8. 17–18 mai. 2025Na véspera da eleição de Buenos Aires, em pleno silêncio eleitoral, circulam no X vídeos falsos feitos com IA de Macri e Lospennato; o tribunal eleitoral manda retirá-los e o X não cumpre.
  9. ago.–out. 2025Em 14 de agosto, segundo a RSF, um promotor imputa formalmente Milei, integrantes do governo e seguidores por ameaças e assédio à jornalista Julia Mengolini. Em 7 de setembro, o partido perde a eleição da província de Buenos Aires por quase 14 pontos; em 26 de outubro, vence as legislativas nacionais com mais de 40%.
  10. abr.–ago. 2026Em abril, a Anistia volta à CIDH e o acesso de jornalistas à Casa Rosada é cortado. Em 18 de agosto, Cerimedo é detido na Bolívia, investigado por tentativa de feminicídio; o governo diz que o papel dele foi limitado.

Três camadas de comunicação

O alcance vinha da soma de três camadas que se alimentavam, e as linhas entre elas nem sempre eram transparentes.

  • OficialMilei, que escrevia ele mesmo no X e no Instagram; a equipe de TikTok de Gutiérrez e Rolón; Romo na conta do partido; Oría nos spots de TV. Pouco dinheiro declarado em anúncios, segundo a própria equipe.
  • Criadores fãsCanais de YouTube, streams e contas de TikTok não oficiais, em sua maioria de homens jovens, que recortavam TV e entrevistas. Alguns tinham laços próximos com a campanha, como gravar nos escritórios da corretora de um candidato.
  • Rede para-oficialSites alinhados como o La Derecha Diario, a estrutura de contas de Cerimedo e, depois da posse, contas anônimas que a imprensa atribui à equipe de Caputo e a agrupação Las Fuerzas del Cielo. É nesta camada que checadores e ONGs documentaram contas inautênticas, alegações falsas e assédio.
O que não se sabe. Vários números vêm dos próprios operadores e não foram auditados: os 300 milhões de pessoas alcançadas, o custo "zero" da campanha e as 50 mil contas de Cerimedo (dito à Infobae e relatado pelo Perfil; a entrevista original não foi consultada).

O estudo da Ad Hoc foi lido apenas por meio do Perfil e do Tiempo Argentino. A atribuição de contas anônimas a Caputo vem de fontes anônimas ouvidas pela Bloomberg e pelo Buenos Aires Times; ele recusou falar. Sobre o Brasil, o El Cronista diz que Cerimedo é citado 66 vezes no relatório da Polícia Federal sobre a trama golpista, enquanto o La Nación diz que nunca foi acusado formalmente. A investigação na Bolívia (2026) e o caso Mengolini não têm decisão final conhecida em outubro de 2026; vale a presunção de inocência. Não foram encontradas entrevistas de Caputo explicando a estratégia. Visualizações medem visibilidade, não votos.

O terreno

Milei chegou à política como economista habitual de programas de TV, com uma equipe pequena e um partido novo, num país em crise econômica…

Milei chegou à política como economista habitual de programas de TV, com uma equipe pequena e um partido novo, num país em crise econômica e com o eleitorado cansado dos dois grandes blocos. A TV dava a matéria-prima; TikTok, YouTube e streaming davam a distribuição.

Plataformas

Programas de TV como matéria-prima
Entrevistas e debates na TV eram recortados e republicados por canais de fãs: dois terços dos vídeos do "El Peluca Milei" eram entrevistas de TV. A televisão dava palco e conflito; os cortes davam alcance entre jovens.
TikTok
Canal central para menores de 25 anos. Gestão pela equipe de Gutiérrez e Rolón, mais uma camada de contas não oficiais. A Argentina tinha 16,2 milhões de usuários adultos em 2023, com cerca de 20 horas de uso por mês, segundo dados citados pela Anistia.
YouTube e streaming
Canais de fãs como "El Peluca Milei" e transmissões longas como BreakPoint; depois da vitória, streamings como Neura e Carajo viraram palcos de entrevistas de horas e de figuras do meio libertário.
X e Instagram
Milei administrava pessoalmente as suas contas no X e no Instagram. O X tornou-se, segundo a Anistia, a ferramenta preferida para acusações contra jornalistas; Agustín Romo cuidava da conta do partido.
WhatsApp e voluntários
Segundo o Perfil, Romo coordenava voluntários por WhatsApp; a fiscalização eleitoral e o monitoramento digital ficaram com Cerimedo.
Spots de TV e sites alinhados
Spots de 48 segundos no horário eleitoral, para públicos mais velhos, e sites como o La Derecha Diario, que o Chequeado mostrou ter publicado alegações falsas.

Condições locais

  • Crise econômica profunda: os próprios coordenadores digitais citavam inflação anual de 150% e cerca de 40% da população abaixo da linha da pobreza.
  • Voto obrigatório a partir dos 16 anos, mas sem sanção para quem tem 16 ou 17, o que dava peso a um público adolescente difícil de alcançar pelos meios tradicionais.
  • Partido novo e sem estrutura territorial forte: a campanha dependia de voluntários e de criadores, e a fiscalização das urnas era uma preocupação declarada.
  • Imprensa tradicional com audiência envelhecida e relação hostil: a RSF registrou insultos de Milei a jornalistas e ao Chequeado já durante a campanha.
  • Oposição fragmentada e alianças de última hora: depois do primeiro turno, o apoio de Patricia Bullrich e Mauricio Macri somou-se ao de Milei.
  • Uso de IA e de campanhas de medo pelos dois lados no segundo turno, num ambiente de denúncias antecipadas de fraude.

O método

Ninguém publicou um manual.

Ninguém publicou um manual. O que se segue é a mecânica reconstruída a partir das entrevistas da equipe, de pesquisas acadêmicas e de reportagens, para que você a reconheça.

Três frentes

A TV como estúdio
Milei aceitava entrevistas e debates em que o conflito era garantido; cada aparição virava dezenas de cortes. A campanha não precisava produzir tudo: a TV fornecia a matéria-prima de graça.
Muitos criadores, poucos custos
Uma equipe oficial pequena e jovem, mais canais de fãs, streamers e contas não oficiais que republicavam e remixavam. Segundo o Mueve Argentina, as contas não oficiais multiplicavam o alcance em até dez vezes.
Outsider com símbolos simples
Um inimigo nomeado ("a casta"), um objeto fácil de lembrar (a motosserra dos cortes de gastos) e uma linguagem de ruptura. Para os mais velhos, spots com um tom mais calmo.

O ciclo de um corte

Da TV ao feed, cada peça seguia um circuito parecido, segundo as fontes citadas.

  1. Cena Entrevista, debate ou stream com uma frase forte, um confronto com o entrevistador ou um gesto simbólico.
  2. Corte Recorte curto, com título agressivo e legenda; metade dos títulos do maior canal de fãs tinha tom agressivo, segundo a UNSAM.
  3. Multiplicação Publicação pela equipe oficial e por canais de fãs, contas de TikTok e streams quase ao mesmo tempo.
  4. Polêmica A reação de adversários e da imprensa vira mais conteúdo: "que falem de nós", nas palavras de um membro da equipe.
  5. Conversa jovem Perguntas e respostas e vídeos sobre emprego, independência e dinheiro, no tom de quem fala de igual para igual.
  6. Tradução para os mais velhos Spots de 48 segundos no horário eleitoral, com um Milei sereno e candidatos do partido ao lado.
  7. Ataque a críticos A parte que checadores e ONGs documentaram como abuso: alegações falsas, contas inautênticas e ondas de assédio a jornalistas, sobretudo mulheres, muitas vezes iniciadas ou replicadas pela conta do próprio Milei.

E recomeça.

O que aprender e o que nunca copiar

Parte do que a campanha de Milei fez é competência de comunicação que qualquer campanha democrática pode usar com transparência.

Parte do que a campanha de Milei fez é competência de comunicação que qualquer campanha democrática pode usar com transparência. Outra parte é o que checadores, ONGs, tribunais e a imprensa documentaram como abuso, e que teve custos.

Nunca copiar

5
Contas inautênticas para mexer no algoritmo
Cerimedo disse a jornalistas da investigação Mercenarios Digitales que usa contas falsas para influenciar algoritmos. No Brasil, o TSE suspendeu as contas dele e do La Derecha Diario Brasil, e ele aparece no relatório da Polícia Federal sobre a trama golpista, segundo o El Cronista.
Deepfakes e manipulação de vídeo
Em 17 de maio de 2025, em pleno silêncio eleitoral, vídeos de IA mostraram falsamente Macri retirando a sua candidata. O tribunal eleitoral mandou retirá-los por enganarem o eleitor, e um promotor abriu investigação; o Chequeado mostrou que várias das contas estavam entre as mais repostadas por Milei.
Assédio coordenado a jornalistas
A Anistia relatou à CIDH assédio a cerca de 30 jornalistas em 2024; o coletivo Periodistas Argentinas documentou 16 casos de mulheres atacadas, a maioria iniciados ou replicados por Milei. No caso Mengolini, que incluiu deepfakes pornográficos e ameaças de morte, um promotor imputou formalmente o presidente, integrantes do governo e seguidores, segundo a RSF; não há decisão final.
Desinformação e alegações sem prova
O Chequeado documentou notícias falsas do La Derecha Diario, como a de grafeno em vacinas, e a live de 2022 com alegações falsas sobre as urnas brasileiras. Em 2023 houve ainda denúncias antecipadas de "fraude colossal" na Argentina. O custo é a perda de credibilidade e suspensões de contas.
Linguagem que desumaniza
O estudo da revista Estudios sobre el Mensaje Periodístico encontrou mensagens que promoviam polarização e, em alguns casos, discurso de ódio. Em maio de 2025, Milei disse que não se odeia o suficiente os jornalistas; a Argentina caiu 47 posições no ranking da RSF em dois anos.

Pode aprender

6
Toda aparição pública é matéria-prima
Planeje entrevistas e debates sabendo que serão recortados: frases que vivem sozinhas em 30–60 segundos, com conteúdo verdadeiro. Tenha um fluxo para cortar, legendar e publicar no mesmo dia.
Abrir espaço para criadores reais
Apoiadores que fazem vídeos e streams podem multiplicar o alcance. Ofereça material bruto e informação, e exija transparência: quem tem relação com a campanha deve dizê-lo publicamente.
Falar do cotidiano dos jovens
A equipe de TikTok falava de sair da casa dos pais, de emprego e de dinheiro no fim do mês. Fale de problemas concretos, de igual para igual, sem tom paternalista.
Um símbolo e uma ideia
Uma imagem simples e uma oposição clara tornam a mensagem fácil de repetir. Escolha símbolos de esperança ou de justiça, não de desumanização.
Dois registros para públicos diferentes
A campanha usava o TikTok para os jovens e spots calmos para os mais velhos. Adapte o tom ao público sem mudar o conteúdo nem as promessas.
Formatos longos também contam
Streams de horas e entrevistas longas criaram vínculo e geraram cortes. Esteja nos programas e transmissões que o seu público já assiste, não só nos seus canais.

Como responder

6
Ter mensageiros antes da crise
O canal de Massa tinha média de cerca de 6 mil visualizações por vídeo e comentários desativados, contra cerca de 572 mil do maior canal de fãs de Milei (UNSAM). Construa com antecedência a sua própria rede de criadores e porta-vozes reais.
Não alimentar a provocação
A estratégia contava com a reação ("que falem de nós"). Em vez de repostar o insulto para denunciá-lo, produza conteúdo próprio sobre o tema, no seu enquadramento, e corrija fatos falsos sem dar alcance ao original.
Prebunking e alfabetização midiática
Especialistas ouvidos pelo Chequeado em 2025 disseram que ordens de remoção depois que o vídeo viraliza servem pouco, e que a alfabetização midiática é essencial. Avise o público antes sobre as técnicas (deepfakes na véspera, manchetes falsas) para que as reconheça.
Ir rápido aos tribunais e às autoridades eleitorais
No caso dos deepfakes de Macri, o tribunal eleitoral de Buenos Aires decidiu em horas. Tenha advogados de plantão no silêncio eleitoral e documente tudo com capturas, links e horários; quando a plataforma não cumpre, leve o caso à imprensa e aos checadores.
Proteger quem é atacado
Periodistas Argentinas recomenda às empresas de mídia prevenção, formação e apoio a jornalistas atacadas; a Anistia pede mecanismos contra narrativas estigmatizantes. Registre casos em monitores como o da FOPEA e acione a CIDH quando quem ataca é o Estado.
Falar das preocupações reais
O apelo de Milei apoiou-se numa crise econômica concreta. Mensageiros de confiança que tratam de inflação, emprego e moradia competem melhor do que campanhas sobre o próprio adversário.

Praticar

Treine com as missões e situações do caso.

A decisão é sua

Seis momentos do ponto de vista de uma campanha democrática diante deste playbook. Escolha e veja o que a evidência sugere.

Regras

O que se aplicou no caso: lei eleitoral, decisões de tribunais, padrões interamericanos de liberdade de expressão e as regras das plataformas.

O que se aplicou no caso: lei eleitoral, decisões de tribunais, padrões interamericanos de liberdade de expressão e as regras das plataformas.

Silêncio eleitoral e tribunais eleitorais
Em 18 de maio de 2025, o Tribunal Eleitoral da Cidade de Buenos Aires ordenou retirar do X os vídeos falsos de Macri e Lospennato, por poderem enganar o eleitor e afetar o voto livre e informado; o promotor pediu a remoção de todas as cópias. O X não cumpriu até a data da reportagem do Chequeado.
Crime eleitoral e investigação penal
O vídeo falso de Macri passou a ser investigado como possível fraude eleitoral; o PRO pediu a apreensão de dispositivos para identificar os autores. Não há resultado público conhecido.
Ameaças e assédio
Em 14 de agosto de 2025, segundo a RSF, um promotor imputou formalmente Milei, integrantes do governo e seguidores por ameaças e assédio a Julia Mengolini; a investigação apura se a campanha foi coordenada e financiada com dinheiro público. Não há decisão final, e vale a presunção de inocência.
Padrões interamericanos
A Anistia pediu à CIDH e à Relatoria para a Liberdade de Expressão que recomendem ao Estado argentino parar com o discurso estigmatizante contra jornalistas; a Relatoria já tinha apontado esse discurso, em especial contra mulheres, em 2024.
Justiça eleitoral brasileira
O TSE suspendeu contas do La Derecha Diario Brasil, um vídeo e a conta pessoal de Cerimedo depois da live com alegações falsas sobre as urnas em 2022.
Financiamento de campanha
Registros oficiais listavam contribuições de Cerimedo que ele disse estarem duplicadas, segundo o Perfil. Financiamento e serviços digitais devem ser declarados por inteiro.
Só gente real e identificada
Para campanhas democráticas: nada de contas falsas, bots, contas compradas, deepfakes ou influenciadores pagos sem identificação.

Limites

O que este método não faz, e quando falha.
Visibilidade não é voto
Visualizações no TikTok e no YouTube medem alcance, não apoio. Muitos números vêm da própria equipe e não foram auditados.
A economia pesou
A campanha aconteceu numa crise de inflação e pobreza altíssimas. O próprio discurso da equipe de TikTok era sobre problemas materiais dos jovens.
Milei não ganhou sozinho
No primeiro turno teve 29,99% e ficou em segundo; a vitória de 55,65% veio depois do apoio de Bullrich e Macri. Alianças tradicionais contaram tanto quanto o feed.
O aparato não garante vitórias
Em 7 de setembro de 2025 o partido perdeu a eleição bonaerense por quase 14 pontos, com o grupo digital de Caputo afastado das listas e em conflito com Karina Milei. Em outubro venceu as legislativas, num contexto em que Trump condicionou ajuda financeira à vitória.
Sujeira dos dois lados
No segundo turno de 2023, as duas campanhas usaram imagens de IA e mensagens de medo, e circulou um vídeo manipulado de Massa sem autoria identificada.
Custos para quem fez
Cerimedo foi suspenso no Brasil, afastado pelo governo e detido na Bolívia em 2026; Las Fuerzas del Cielo perderam espaço em 2025; o presidente foi imputado no caso Mengolini, sem decisão final; e a Argentina caiu no ranking de liberdade de imprensa.

Verificar

Cinco perguntas sobre a mecânica, as linhas vermelhas e as respostas.

Cinco perguntas sobre a mecânica, as linhas vermelhas e as respostas. Cada resposta traz a explicação.

1. De onde vinha a maior parte dos vídeos do canal de fãs "El Peluca Milei" durante a campanha?
2. Que resultado Milei teve no primeiro turno de 22 de outubro de 2023?
3. O que aconteceu com os vídeos falsos de IA de Macri publicados no silêncio eleitoral de maio de 2025?
4. Qual destas práticas é uma linha vermelha que nunca deve ser copiada?
5. Por que repostar uma provocação do adversário para criticá-la pode ajudá-lo?

Fontes

Estudo de caso construído com entrevistas da equipe publicadas pela imprensa, investigações de checadores, relatórios de ONGs, pesquisas…

Estudo de caso construído com entrevistas da equipe publicadas pela imprensa, investigações de checadores, relatórios de ONGs, pesquisas acadêmicas e reportagens publicadas entre setembro de 2023 e agosto de 2026. Todas as páginas foram abertas e lidas em 26 de outubro de 2026. Nenhuma fonte liga diretamente a conteúdo extremista.

32 fontes

Quem fez

Dados

Imprensa

Análise

Atualizado em 26 de outubro de 2026

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