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Fundamentos

Primeiro, as contas.

Os conceitos que todos os playbooks usam: de onde vêm os votos, com quem falar, como medir e como se proteger. Leia isto antes de adaptar um caso e volte aqui quando um termo não estiver claro.

Teoria da vitória e meta de votos

Antes de escolher um canal, faça uma conta: quantas pessoas vão votar, quantos votos você precisa, com margem, e de onde eles vêm.

Antes de escolher um canal, faça uma conta: quantas pessoas vão votar, quantos votos você precisa, com margem, e de onde eles vêm. A teoria da vitória é a frase que liga essa conta ao plano: 'ganhamos se a base vota, se trazemos X apoiadores que costumam faltar e se convencemos Y indecisos que votam'.

  • Meta de votos = eleitores inscritos × participação esperada × fração necessária para ganhar, mais uma margem de segurança de 5 a 10%.
  • A fração depende do sistema: maioria num segundo turno, primeiro lugar numa lista proporcional, a cadeira num distrito de um só eleito, 50% + 1 num referendo.
  • Divida a meta por três fontes: base que já vota, apoiadores que podem faltar (mobilização) e indecisos que votam (persuasão).
  • Use os resultados por seção das eleições anteriores para saber onde mora cada fonte.
  • Teste a teoria cedo, com dados: se o novo eleitorado não aparece nas primeiras medições, mude o plano antes do fim.
  • Nos casos: no Brasil 2026 a conta era virar 2,2 milhões de votos em três semanas; em Barcelona 2015, ficar em primeiro com um quarto dos votos e ter com quem governar.

Exemplo ilustrativo

Cidade imaginária: 200.000 eleitores inscritos; nas últimas eleições votaram 55%, então conte com cerca de 110.000 votos. Numa disputa a dois, ganhar exige 55.001; com 5% de margem, a meta é 58.000. A base que sempre vota dá cerca de 36.000. Há 30.000 apoiadores que votam às vezes: a 30% de participação rendem 9.000; se a campanha levar a participação deles a 50%, rendem 15.000. Faltam 7.000, que têm de vir de cerca de 24.000 indecisos que votam: quase um em cada três. Se isso parece impossível, a conta mostra onde mexer: mais mobilização, começar mais cedo ou outra meta (segundo lugar, uma coalizão). Conta simplificada: mais participação também aumenta o total, por isso refaça-a a cada mês.

Públicos: apoio × participação

Para cada grupo de eleitores, cruze duas perguntas: apoia você?

Para cada grupo de eleitores, cruze duas perguntas: apoia você? Vai votar? O resultado são quatro públicos, cada um com lista, roteiro e meta próprios. Misturá-los custa caro: você gasta persuasão com quem já está convencido ou lembra de votar quem vai votar no adversário.

  • Apoia e vota (a base): não precisa ser convencida; peça trabalho, dinheiro e conversas com quem ela conhece.
  • Apoia e pode faltar: mobilização (lembrete, plano de voto, transporte, horário).
  • Indeciso que vota: persuasão (mensageiro de confiança, tema concreto, escuta).
  • Adversário firme: não gaste tempo com ele; quando responder, fale para os indecisos que estão ouvindo.
  • Onde há cadastro eleitoral com histórico de participação (como nos EUA), as listas saem dele; onde não há, use resultados por seção, pesquisas e o que se ouve nas portas, sabendo que é estimativa.
  • Em eleições gerais, o contato quase não persuade (ver 'O que a pesquisa diz'); em primárias, referendos e com quem costuma faltar, pesa mais.
  • Indeciso não quer dizer centrista: muitas vezes é alguém pouco interessado em política. Fale de vida concreta, não de posição ideológica.

Exemplo ilustrativo

100 voluntários e seis semanas. Errado: mandar todos bater em todas as portas do bairro mais simpático, onde mora a base que já vota. Certo: 20 voluntários transformam a base em mais voluntários, 50 fazem mobilização nas seções com muitos apoiadores e pouca participação, 30 fazem persuasão nas seções equilibradas, cada grupo com o seu roteiro e a sua métrica.

Mensagem e disciplina

Uma mensagem define o que você diz, a quem, e o que fica de fora.

Uma mensagem define o que você diz, a quem, e o que fica de fora. Disciplina é repetir essa escolha mais vezes do que parece necessário, com exemplos e vozes diferentes.

  • Uma frase de contraste: por que você e não o outro, nas palavras que o público usa.
  • No máximo três provas: promessas concretas, verificáveis e ligadas à vida de quem você quer alcançar.
  • O mensageiro pesa tanto quanto a mensagem: médicos, vizinhos, colegas de trabalho, quem viveu a história.
  • Pesquise antes de escrever (grupos focais, conversas nas portas, comentários) e teste antes de escalar.
  • Repita: a equipe cansa da mensagem muito antes de o público fixá-la.
  • Cada resposta a um ataque termina no seu tema, não no do adversário.
  • Nos casos: Mamdani organizou tudo em torno de três promessas sobre custo de vida; no Senegal, 'Diomaye é Sonko' transferiu a confiança do líder para o substituto numa só frase.

Exemplo ilustrativo

Exemplo ilustrativo, a caixa de mensagem: numa página, quatro quadrantes. O que dizemos de nós; o que dizemos deles; o que eles dizem de nós; o que eles dizem de si. Preencha-os antes de qualquer peça. Cada conteúdo sai do primeiro quadrante, e cada resposta a um ataque do terceiro volta ao primeiro.

A escada do voluntário

Inscrever pessoas é a parte fácil.

Inscrever pessoas é a parte fácil. A escada é uma sequência de pedidos cada vez maiores, e a campanha mede quantos passam de um degrau ao seguinte, não o total de inscritos.

  • Inscrição → contato em 24 horas → primeira tarefa pequena → segunda tarefa → papel com nome → líder de equipe.
  • Contato rápido: quem não é chamado em poucos dias esfria. Uma mensagem pessoal vale mais do que um e-mail automático.
  • A primeira tarefa tem começo e fim claros e um resultado visível.
  • Papéis com nome, horário e treinamento: capitão de bairro, coordenador de turno, responsável pelos dados.
  • Líderes recrutam e treinam outros: é assim que a rede cresce sem a equipe central virar gargalo.
  • Cuide de quem já está: agradeça, mostre o efeito do trabalho, ofereça descanso. O desgaste é um limite em quase todos os casos.
  • Nos casos: em 2016 os voluntários de Sanders não tinham títulos nem papéis de gestão; em 2020 a campanha criou capitães com horas, treino e coach.

Exemplo ilustrativo

1.000 inscritos → 600 contatados em 24 horas → 250 fazem a primeira tarefa → 120 voltam para a segunda → 40 assumem um papel → 10 lideram equipes. Se o pior salto é de 600 para 250, o problema está na primeira tarefa, não no recrutamento.

Mídia própria, conquistada, paga e partilhada

Há quatro maneiras de chegar às pessoas, e quase todas as campanhas vencedoras usam as quatro.

Há quatro maneiras de chegar às pessoas, e quase todas as campanhas vencedoras usam as quatro. A própria é sua (lista, canal, site); a conquistada é dada por outros (imprensa, criadores, boca a boca); a paga se compra (TV, rádio, outdoor, anúncios); a partilhada é o que os apoiadores publicam e reenviam.

  • Própria primeiro: uma lista de e-mail e um canal de mensagens que você controla sobrevivem a mudanças de algoritmo e a contas derrubadas.
  • Conquistada: a imprensa ainda define a pauta para muita gente. Tenha porta-vozes, fatos verificáveis e ações pensadas para virar notícia.
  • Paga: a TV não desapareceu. A campanha de Obama gastou cerca de 280 milhões de dólares em anúncios de TV entre janeiro de 2007 e novembro de 2008 (TNS/CMAG, citada pelo FactCheck.org), e a de Mamdani pôs o primeiro anúncio na TV aberta em 24 de abril de 2025. Nos dois casos, o pago se somou ao orgânico.
  • Na UE, desde outubro de 2025, a Meta não entrega anúncios políticos, eleitorais ou sobre temas sociais e o Google deixou de veicular publicidade política; jornais, rádios, outdoor e outros meios ainda podem vendê-los, com rótulo e aviso de transparência.
  • Partilhada: peça a cada pessoa que diga o que pensa com as próprias palavras. Textos idênticos publicados ao mesmo tempo por muitas contas parecem comportamento inautêntico coordenado.
  • Criadores pagos para levar uma mensagem política fazem publicidade: declare a parceria.

Exemplo ilustrativo

Exemplo ilustrativo de uma semana: segunda, uma ação de rua pensada para a foto (conquistada); de terça a quinta, o vídeo da ação no canal e na lista (própria), com o pedido de reenviar a três pessoas próximas (partilhada); sexta, um spot de rádio local com rótulo, onde a lei e o orçamento permitem (paga). Todas as peças apontam para a mesma página de inscrição.

Medir e testar

Visualizações e reações dizem que algo foi visto, não que mudou alguma coisa.

Visualizações e reações dizem que algo foi visto, não que mudou alguma coisa. Meça em três níveis e teste antes de escalar.

  • Atenção: visualizações, alcance, reações. Serve para saber se a peça circula; não é meta.
  • Ação: o que acontece fora da tela (inscrições, turnos feitos, planos de voto, doações, pessoas levadas à seção). Esta é a meta das missões.
  • Resultado: participação e votos por seção, comparados com a eleição anterior.
  • Teste A/B: duas versões de uma mensagem para grupos parecidos, sorteados; compare a ação, não a reação.
  • Grupo de controle: deixe algumas seções ou listas parecidas sem contato e compare depois. É a única forma de saber se o contato mudou algo.
  • Links com UTM e formulários dizem de onde veio cada inscrição.
  • Dados de porta a porta mostram tendência, não preveem resultado: as portas que se abrem não são uma amostra aleatória.
  • Separe o número da campanha, o oficial e o da plataforma, e diga sempre de onde vem cada um.

Exemplo ilustrativo

20.000 apoiadores que votam às vezes, divididos por sorteio em três grupos. O grupo A recebe um SMS que pede um plano de voto, o B um lembrete simples, o C nada. Depois da eleição, compare a participação dos três nos registros oficiais, onde a lei permite consultá-los. Se A não supera C, o SMS não valeu o custo; se A supera B, o plano de voto é o que funciona.

Boatos: silêncio, correção e prebunking

O silêncio serve para ataques que ainda não chegaram ao seu público; a correção serve quando o boato já circula entre quem decide; a vacina…

O silêncio serve para ataques que ainda não chegaram ao seu público; a correção serve quando o boato já circula entre quem decide; a vacina antecipada (prebunking) serve para ataques que você sabe que vêm. A pesquisa diz que corrigir funciona e que o efeito ricochete é raro.

  • Escute primeiro: qual o alcance, quem está repetindo, e se chegou aos indecisos ou só aos convencidos de um lado.
  • Boato pequeno, fora do seu público: não amplifique. Citar dá alcance.
  • Boato que chegou ao seu público: responda depressa: fato primeiro, boato uma vez só, por que é falso, fato de novo. Depois volte ao seu tema.
  • Responda no formato em que o boato circula: imagem, áudio curto, vídeo vertical, na mesma rede.
  • Mensageiros de confiança corrigem melhor do que comunicados: um médico, um vizinho, um checador independente.
  • Ataque previsível: vacine antes. Explique a técnica que vai ser usada ('vão dizer que…, e é assim que se reconhece'), não só o fato.
  • Nunca responda com boato, perfil falso ou insinuação.
  • Nos casos: em Taiwan, cada ministério respondia a boatos em alta em até duas horas, com duas imagens, texto curtíssimo e humor.

Exemplo ilustrativo

Exemplo ilustrativo de correção em quatro tempos: 'A escola do bairro não vai fechar: a verba está no orçamento aprovado (link). Circula um áudio dizendo o contrário. O áudio corta a frase no meio da reunião. A verba está aprovada e a obra começa em março.'

Mobilização final e proteção do voto

Nas últimas semanas, o trabalho é levar os seus a votar e garantir que cada voto é contado.

Nas últimas semanas, o trabalho é levar os seus a votar e garantir que cada voto é contado. São duas operações, com equipes diferentes: mobilização (quem, quando, como chega) e proteção (fiscais, atas e contagem própria).

  • Peça um plano de voto: a que horas, de onde sai, com quem vai. Em experimento nos EUA, pedir um plano aumentou a participação em 4,1 pontos entre os contatados.
  • Diga quantos vão votar, não quantos ficam em casa: 'muita gente vota' motiva mais do que 'muita gente não vota'.
  • Remova obstáculos: transporte, local de votação, documentos, transferência de domicílio eleitoral, prazos de voto antecipado ou no exterior.
  • Fiscais credenciados nas seções que importam, treinados nas regras e com um contato jurídico.
  • No fechamento, cada fiscal fotografa a ata ou o boletim de urna assinado da sua seção (nunca o voto de alguém) e envia a uma central que soma e compara com os números oficiais.
  • Observadores independentes comparam e publicam por conta própria: não se coordena com eles, porque a credibilidade deles depende de não serem de nenhum lado.
  • Prepare a noite e o dia seguinte: quem fala, quando, e o que fazer se os números divergirem.

Exemplo ilustrativo

Exemplo ilustrativo de roteiro de plano de voto (30 segundos): 'Oi, Ana, é o Paulo, voluntário da campanha. A eleição é domingo. A que horas você pensa em votar? Vai sair de casa ou do trabalho? Vai com alguém? Combinado: domingo às 10h, saindo de casa, com a sua irmã. Obrigado!'

Segurança de quem organiza

Organizar expõe pessoas.

Organizar expõe pessoas. Em contextos repressivos, o risco é prisão, vigilância e violência; em democracias, assédio, doxxing e ameaças, sobretudo contra candidatas, voluntárias e pessoas de minorias. A segurança entra no plano no primeiro dia.

  • Mapeie os riscos por pessoa e por função: quem aparece em público, quem guarda dados, quem vai à rua.
  • Contas: verificação em duas etapas em todas, gerenciador de senhas, mais de um administrador e um canal de reserva.
  • Números: num grupo comum de WhatsApp, todos veem o número de todos. Para avisos use canais; para coordenação sensível, Signal com nome de usuário e número oculto.
  • Na rua e nas portas: duplas, um contato de referência, protocolo de incidentes e registro de cada caso.
  • Assédio online: ninguém responde sozinho. Documente com capturas datadas, denuncie na plataforma e tenha alguém da equipe filtrando as mensagens da pessoa visada.
  • Contextos repressivos: celular de protesto (sem desbloqueio por rosto ou digital, localização desligada, mensagens temporárias), apoio jurídico e médico, e nada de VPN grátis de origem desconhecida.
  • Dados: guarde só o que precisa, pelo tempo que precisa. Uma lista vazada é um risco para cada pessoa que está nela.
  • O link de compartilhamento do kit contém o seu plano: em contextos restritos, não o envie por apps que o governo controla. Na biblioteca, o Security in a Box tem guias passo a passo.

Exemplo ilustrativo

Exemplo ilustrativo de protocolo de incidente: 1) a pessoa sai do lugar ou da conversa; 2) avisa o contato de referência; 3) registra o que aconteceu, com hora e capturas; 4) a coordenação decide se denuncia à plataforma, à polícia ou à autoridade eleitoral; 5) alguém acompanha a pessoa nos dias seguintes.

O que a pesquisa diz

Quase tudo nesses playbooks vem do relato das próprias campanhas.

Quase tudo nesses playbooks vem do relato das próprias campanhas. Os achados abaixo vêm de experimentos e estudos e ajudam a separar o que funciona do que só parece funcionar. Ressalva: quase não há experimentos sobre canais de WhatsApp, servidores de Discord ou organização relacional em grande escala, e a maior parte dos estudos é dos EUA.

  1. Em eleições gerais, o contato de campanha quase não muda votos

    Uma análise de 49 experimentos de campo nos EUA estimou em zero, em média, o efeito persuasivo do contato e da publicidade sobre a escolha do candidato em eleições gerais. Houve efeito em dois casos raros: quando um candidato tem posições muito impopulares e o outro investe em identificar quem é persuadível, e quando o contato é muito cedo (e, nesse caso, o efeito se apaga). Para quem organiza: em gerais, use o contato sobretudo para mobilizar; em primárias, referendos e eleições com pouca informação, o cálculo pode ser outro. Ressalva: dados dos EUA.

    Kalla e Broockman, American Political Science Review, 2018 (pré-publicação SSRN, 2017)
  2. Pedir um plano de voto aumenta a participação

    Num experimento com 287.228 pessoas nas primárias presidenciais americanas de 2008, ligações que pediam um plano (a que horas, de onde, como) aumentaram a participação em 4,1 pontos entre os contatados, e em 9,1 pontos em casas com um só eleitor; a ligação de incentivo comum não teve efeito. Para quem organiza: troque 'não esqueça de votar' por perguntas que levam a pessoa a montar o plano. Ressalva: um experimento, por telefone, num país de voto facultativo.

    Nickerson e Rogers, Psychological Science, 2010
  3. 'Muita gente vota' motiva mais do que 'muita gente não vota'

    Em dois experimentos de mobilização, na Califórnia e em Nova Jersey, mensagens que anunciavam participação alta motivaram mais do que mensagens que lamentavam a abstenção, sobretudo entre quem vota pouco. Para quem organiza: diga quantos vão votar, não quantos ficam em casa. Ressalva: mediu-se a motivação declarada para votar, não o voto registrado.

    Gerber e Rogers, Journal of Politics, 2009
  4. Corrigir boatos funciona; o efeito ricochete é raro

    A síntese de pesquisadores de desinformação conclui que o efeito ricochete (a correção reforçar o boato) acontece só ocasionalmente e recomenda não deixar de corrigir por medo dele; repetir o boato ao refutá-lo é, em geral, seguro. Para quem organiza: o silêncio é uma tática para boatos pequenos, não uma regra. Ressalva: é uma síntese de estudos, não mede efeito sobre votos.

    The Debunking Handbook 2020 (Skeptical Science)
  5. Vacinar antes ajuda a reconhecer manipulação

    Vídeos de 90 segundos que ensinam a reconhecer técnicas como a linguagem emocional e as falsas dicotomias foram exibidos como anúncios a cerca de 5,4 milhões de usuários do YouTube nos EUA; entre os que responderam ao teste, a capacidade de reconhecer as técnicas subiu cerca de 5% em média. Em laboratório, quem viu os vídeos foi cerca de duas vezes melhor a detectar falsas dicotomias. Para quem organiza: antecipe a técnica que o adversário vai usar, não só o fato. Ressalva: o efeito no campo é pequeno e mede reconhecimento, não voto.

    Roozenbeek et al., Science Advances, 2022 (Universidade de Cambridge)
  6. Escritórios de campo contaram em 2008

    Um estudo de 11 estados decisivos encontrou aumento desproporcional do voto democrata nos condados com escritórios de campo de Obama, grande o suficiente para virar três estados. Para quem organiza: presença local organizada pesa, mesmo numa eleição com muita TV e muito digital. Ressalva: é um estudo observacional, não um experimento; a campanha escolheu onde abrir escritórios.

    Masket, Public Opinion Quarterly, inverno de 2009
  7. Trocar histórias muda atitudes; argumentos sozinhos, não

    Em três experimentos pré-registrados, 230 voluntários conversaram com 6.869 eleitores em sete locais dos EUA sobre imigrantes sem documentos e pessoas trans. Conversas com troca de histórias pessoais, sem julgamento, reduziram atitudes excludentes (no primeiro experimento, por pelo menos quatro meses); conversas iguais mas só com argumentos não tiveram efeito. Para quem organiza: em temas de identidade, peça e conte histórias, não só fatos. Ressalva: o efeito médio é pequeno e é sobre atitudes, não sobre o voto num candidato.

    Kalla e Broockman, American Political Science Review, 2020

Quando isto não funciona

  • Ninguém confia no mensageiro

    Estes métodos amplificam uma voz que já tem crédito: Janones tinha audiência própria, Mamdani e Obama atraíam gente por si. Se o rosto da campanha é desconhecido ou desacreditado no público decisivo, missões e vídeos espalham desconfiança mais depressa. Comece por mensageiros emprestados (médicos, vizinhos, líderes locais) e por metas menores.

    Brasil 2026 Nova York 2025 Estados Unidos 2008 Irlanda 2018

  • Não há estrutura fora da tela

    Os casos que viraram votos tinham anos de organização por trás: em Nova York, uma organização com quase uma década de experiência eleitoral; na Irlanda, seis anos de grupos locais; no Sri Lanka, décadas de rede militante. Um canal novo sem gente nas portas, nos bairros e nas seções não traz votos. Se tem semanas, escolha poucas seções e faça-as bem.

    Nova York 2025 Irlanda 2018 Sri Lanka 2024 Estados Unidos 2016–2020

  • Repressão pesada sem plano de segurança

    Onde há prisões, vigilância e violência, listas públicas, grupos abertos e rostos conhecidos expõem pessoas. Sem apoio jurídico, médico e digital, e sem regras para os dados, o método põe vidas em risco antes de ganhar alguma coisa. Na Sérvia, no Quênia, em Bangladesh e na Geórgia, o custo humano foi alto.

    Sérvia 2026 Quênia 2024 Bangladesh 2024 Geórgia 2024–2026

  • O público decisivo não está online

    Se quem decide é mais velho, rural ou vive em grupos fechados que você não alcança, o digital fala com os já convencidos. Em Barcelona o digital não chegou a todos; em Taiwan, os grupos cifrados continuavam escuros para quem checava boatos. Junte rádio, imprensa local, porta a porta e mensageiros de cada comunidade.

    Barcelona 2015 Taiwan 2018–2021 Polônia 2023

  • Voto obrigatório ou facultativo muda a conta

    Onde votar é facultativo, ganhar é muitas vezes trazer quem não vota: no Chile de 2021, votaram cerca de 1,25 milhão de pessoas a mais no segundo turno. Com voto obrigatório, reinstaurado no Chile no fim de 2022, esse reservatório quase desaparece e o trabalho passa a ser persuasão e remoção de obstáculos. No Brasil, onde votar é obrigatório para a maioria dos adultos, a reta final é sobretudo logística.

    Chile 2021 Brasil 2026 Polônia 2023

  • O governo pode desligar a internet

    Uma VPN contorna o bloqueio de uma plataforma, não um apagão total. Em Bangladesh, o corte travou a coordenação e escondeu a violência durante dias. Tenha antes canais fora da internet: telefone, SMS, rádio, pontos de encontro combinados e pessoas que levam a mensagem em mão.

    Senegal 2024 Bangladesh 2024 Nepal 2025

  • O contexto político joga contra

    Mobilização não compensa tudo: com cerca do dobro de gente nas portas, o Labour perdeu cadeiras em 2019; Sanders perdeu duas primárias com milhões de ligações e mensagens; o Fridays for Future encheu as ruas sem conseguir as leis pedidas. Se a economia, o candidato ou o tema estão contra você, o método reduz a derrota ou constrói para depois; não prometa a vitória.

    Reino Unido 2017 Estados Unidos 2016–2020 Global (começou na Suécia) 2018–2019

  • Você precisa convencer, mas só fala com convertidos

    Canais de campanha e ações espetaculares são seguidos por quem já concorda. Se a eleição se decide entre indecisos que votam, o contato rende pouco em gerais e as ações de choque podem dar palco ao alvo. Na Irlanda de 2015, o porta a porta aumentou a participação mas não mudou votos; a persuasão veio de mensageiros e histórias.

    Reino Unido 2019–2026 Irlanda 2015 Irlanda 2018 Brasil 2026

Como ler estes casos: o viés de sobrevivência

Estudar só quem ganhou engana: os mesmos métodos foram usados por quem perdeu, e o resultado depende também do candidato, do dinheiro, da…

Estudar só quem ganhou engana: os mesmos métodos foram usados por quem perdeu, e o resultado depende também do candidato, do dinheiro, da economia e do adversário. Por isso o site inclui derrotas e vitórias parciais e as lê com o mesmo cuidado. A campanha de Sanders (Big Organizing) perdeu as primárias de 2016 e de 2020. A Momentum ajudou o Labour a tirar a maioria dos conservadores em 2017, mas não a formar governo, e em 2019, com cerca do dobro de gente nas portas, o partido caiu para 202 cadeiras. Na Geórgia, mais de 500 dias de protesto diário não trouxeram novas eleições. No Chile, Boric ganhou em 2021 e o mesmo adversário, Kast, venceu em 2025. O Fridays for Future encheu as ruas sem que viessem as leis pedidas, e no Sri Lanka quem fez a Aragalaya não foi quem chegou ao poder. Barcelona en Comú ganhou sem maioria própria, e na Polônia a participação recorde não impediu o PiS de ficar em primeiro. Os playbooks do outro lado (AfD, Bolsonaro, Georgescu, Milei, Trump) estão aqui para estudar métodos que funcionaram para adversários (e, no caso de Georgescu, uma eleição anulada), nunca para copiar o que neles é inautêntico. Leia cada caso assim: o que aconteceu, que parte se deve ao método e que parte ao contexto, e o que dizem os limites. Se um método só aparece em vitórias, desconfie.

Lei e plataformas na União Europeia

Desde outubro de 2025, a campanha paga na UE mudou: a lei exige rótulo e transparência em toda a publicidade política, e as duas maiores…

Desde outubro de 2025, a campanha paga na UE mudou: a lei exige rótulo e transparência em toda a publicidade política, e as duas maiores plataformas de anúncios deixaram de vendê-la. Esta ficha resume o que vale em toda a União; cada país acrescenta regras próprias (silêncio eleitoral, limites de gastos), que o seletor de país mostra. Não é aconselhamento jurídico: confirme com um advogado.

  • Regulamento (UE) 2024/900 sobre publicidade política

    Em plena aplicação desde 10 de outubro de 2025, vale para a publicidade política online e offline, em eleições e referendos europeus, nacionais e locais. Publicidade política é a mensagem paga, ou feita por conta de um ator político, capaz de influenciar uma eleição, um referendo, o comportamento de voto ou um processo legislativo: campanhas de causa de ONGs, sindicatos e movimentos também entram, mesmo sem nomear partido. ↗

  • Rótulo e aviso de transparência

    Cada anúncio político pago tem de dizer que é publicidade política, quem o patrocina e a que eleição ou processo se liga, e levar a um aviso de transparência com, entre outros dados, quanto custou. Quem publica guarda os avisos por sete anos. O formato do rótulo está fixado num regulamento de execução de 2025, e a Comissão lançou em 12 de outubro de 2026 uma versão piloto do repositório europeu de anúncios online. ↗

  • Segmentação só com consentimento explícito

    Online, usar dados pessoais para segmentar ou entregar anúncios políticos só é possível com dados coletados junto da própria pessoa e com consentimento explícito, dado em separado, para publicidade política. Perfis construídos com dados sensíveis, como opinião política, religião ou origem étnica, estão proibidos para esse fim. ↗

  • Patrocinadores de fora da UE barrados nos três meses antes do voto

    Nos três meses anteriores a uma eleição ou referendo, serviços de publicidade política só podem ser prestados a patrocinadores que declarem ser cidadãos da UE, estrangeiros residentes com direito de voto nessa eleição, ou entidades da UE que não sejam controladas de fora dela. Fazer campanha a partir de fora da UE não isenta: anúncios que chegam a eleitores na UE seguem as mesmas regras. ↗

  • A Meta parou os anúncios políticos na UE

    Desde 6 de outubro de 2025, a Meta não entrega anúncios políticos, eleitorais ou sobre temas sociais na UE. Políticos e candidatos continuam podendo publicar conteúdo político; só não podem impulsioná-lo com anúncios. Fora da UE, as ferramentas de anúncios políticos da Meta continuam. ↗

  • O Google também, incluindo o YouTube

    O Google anunciou em novembro de 2024 que deixaria de servir anúncios políticos na UE, incluindo no YouTube, por causa do regulamento, e aplicou a decisão em outubro de 2025. A política de anúncios em vigor restringe nas suas plataformas a publicidade política tal como o regulamento a define; mensagens oficiais sobre como votar podem pedir exceção. ↗

  • O que continua permitido

    A lei não proíbe anúncios: jornais, rádios, televisões, outdoor e meios locais ainda podem vendê-los, com rótulo e aviso. E deixa de fora o orgânico: publicações próprias não pagas, canais de mensagens, sites, opiniões dadas a título pessoal e o trabalho de voluntários. Criadores pagos para levar uma mensagem política, esses, fazem publicidade e precisam de rótulo. E-mail e SMS de campanha pedem consentimento prévio e uma forma simples de sair da lista. ↗

  • DSA: as grandes plataformas têm de reduzir riscos eleitorais

    O Regulamento dos Serviços Digitais obriga plataformas e motores de busca muito grandes a avaliar e reduzir os riscos para processos eleitorais; as orientações da Comissão de 26 de abril de 2024 explicam como. Isso pesa na rotulagem, na redução de alcance e na remoção de conteúdo manipulado, e a Comissão abriu um processo formal contra o TikTok por causa da eleição romena de 2024. Para campanhas: denuncie manipulação pelos canais da plataforma e guarde provas, e lembre que coordenação inautêntica sua também é alvo. ↗

  • RGPD: opinião política é dado sensível

    Dados que revelam opiniões políticas só podem ser tratados com consentimento explícito para fins definidos ou, no caso de partidos, associações e outras entidades políticas sem fins lucrativos, quanto aos seus membros e contatos regulares, dentro das suas atividades e sem partilhar fora delas. O interesse legítimo, sozinho, não basta para estes dados, e o que a pessoa tornou público é lido de forma restrita: não autoriza deduzir opiniões de quem curtiu ou seguiu alguém. ↗

  • A campanha responde pelos dados que usa

    Quem decide para que servem os dados (partido, candidatura ou movimento) é o responsável pelo tratamento e tem de poder demonstrar que cumpre as regras. Diga a cada pessoa por que recebe uma mensagem, quem a envia e como exercer os seus direitos, também quando os dados vieram de terceiros. Perfis para segmentar mensagens de campanha exigem, em princípio, consentimento explícito. Plataformas, corretores de dados e agências também estão sob supervisão. ↗

Glossário

Meta de votos
Quantos votos é preciso para ganhar: inscritos × participação esperada × fração necessária, mais uma margem.
Teoria da vitória
A frase que diz de onde vêm os votos que faltam e que trabalho os traz.
Universo
A lista de pessoas a quem se dirige uma ação: por exemplo, apoiadores que costumam faltar numa zona.
Base
Quem já apoia e costuma votar; é a fonte de voluntários, dinheiro e conversas.
Persuasão
Trabalho para mudar a escolha de quem vai votar mas ainda não decidiu.
Mobilização (GOTV)
Get out the vote: trabalho para que apoiadores que podem faltar votem de fato.
Propensão
A probabilidade estimada de uma pessoa votar, a partir do histórico ou de pesquisas.
Identificação de eleitor
Registrar, em cada contato, o apoio da pessoa numa escala (por exemplo de 1 a 5) para montar as listas seguintes.
Porta a porta
Conversas presenciais nas casas dos eleitores, com roteiro e registro de cada resposta.
Phone bank
Sessões de ligações feitas por voluntários, presenciais ou remotas, com roteiro e lista.
SMS de pessoa para pessoa
Mensagens enviadas uma a uma por voluntários, com resposta possível; não é disparo em massa e exige consentimento onde a lei pede.
Organização relacional
Pedir a cada apoiador que fale com as pessoas que já conhece, e registrar essas conversas.
Organização distribuída
Voluntários que fazem trabalho de staff com ferramentas simples e um plano central público.
Barnstorm
Reunião de massa que termina com equipes formadas e tarefas marcadas, não só com discursos.
Escada de liderança
A sequência de pedidos cada vez maiores que leva um inscrito a líder de equipe.
Caixa de mensagem
Quadro de quatro quadrantes: o que dizemos de nós e deles, o que eles dizem de nós e de si.
Fiscal
Pessoa credenciada para acompanhar a votação e a contagem numa seção, em nome de uma candidatura ou lista.
Ata ou boletim de urna
O documento assinado com o resultado de cada seção; a foto dele é a prova que permite contestar.
Contagem paralela
Soma própria dos resultados de cada seção, feita a partir das atas, para comparar com os números oficiais.
Silêncio eleitoral
Período antes do voto em que a lei de alguns países proíbe campanha ou sondagens; as regras são nacionais.
Publicidade política
Na UE, mensagem paga ou feita por conta de um ator político que pode influenciar uma eleição, um referendo ou uma lei; exige rótulo e aviso (Regulamento (UE) 2024/900).
Comportamento inautêntico coordenado
Contas falsas ou coordenadas para enganar sobre quem fala ou quantos são; motivo de remoção em todas as grandes plataformas.
UTM
Etiquetas num link que dizem de que peça ou canal veio cada clique ou inscrição.
Dado sensível
No RGPD, dado que revela opinião política, religião, saúde ou origem étnica, entre outros; só se trata com consentimento explícito ou exceção estreita.
Prebunking
Vacinar antes: explicar uma técnica de manipulação ou um ataque previsível antes que chegue ao público.

Adaptar ao seu país

Os toolkits trocam as ferramentas pelas que mais se usam no país (por exemplo, Telegram onde ele domina) e mostram as regras eleitorais e o estado da internet desse país. A escolha fica só neste navegador.